Muito curiosa a disposição do meu espirito: nem o minimo remorso, o minimo constrangimento—nuvem alguma. Pelo contrario, ha muito que me não via tão bem disposto. O proprio meu amigo o observou.

Falámos os dois largamente essa noite, coisa que ha bastante não acontecia. Ricardo terminara emfim nessa tarde o seu volume. Por isso nos não deixou...

... E no meio da sua conversa intima, eu esquecera até o episodio dourado. Olhando em redór de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós...

Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera esta estranha coisa:

—Sabe você, Lucio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi á tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu ultimo verso. Saí do escritorio. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi reflectido nêle! Era verdade! Via tudo em redór de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho. Só não via a minha imagem... Ah! não calcula o meu espanto ... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.

Porêm, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me não dissera nada disto. Apenas eu—numa reminiscencia muito complicada e muito estranha—me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.

[V]

A nossa ligação, sem uma sombra, foi prosseguindo.

Ah! como eu, ascendido, me orgulhava do meu amor... Vivia em sortilegio, no contínuo deslumbramento duma apoteose branca de carne...

Que delirios estrebuchavam os nossos corpos doidos ... como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e liturgica...