Tive sempre grandes antipatias fisicas, meramente exteriores. Lembro-me por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde todas as noites jantava com Gervasio Vila-Nova, ia algumas vezes uma rapariga italiana, deveras graciosa—modelo sem duvida—que muito me enternecia, que eu cheguei quasi a desejar.
Mas em breve tudo isso passou.
É que a vira um Domingo caminhando de mãos dadas com certo individuo que eu abominava com o maior dos tedios, e que já conhecia de o encontrar todas as tardes jogando as cartas num café burguês da praça S. Michel. Era escarradamente o que as damas de quarenta ânos e as criadas de servir chamam um lindo rapaz. Muito branco, rosadinho e loiro, bigodito bem frisado, o cabelo encaracolado; uns olhos pestanudos, uma bôca pequenina—meiguinho, todo esculpido em manteiga; oleoso nos seus modos, nos seus gestos. Caixeiro de loja de modas—ah! não podia deixar de ser!...
Embirrava de tal forma com semelhante criatura açucarada, que nunca mais tinha voltado ao café provinciano da praça de S. Miguel. Com efeito era-me impossivel sofrer a sua presença. Dava-me sempre vontade de vomitar em face dêle, na mesma nausea que me provocaria uma mistura de toucinho rançoso, enxundia de galinha, mel, leite e herva-dôce...
Ao encontra-lo—o que não era raro—eu não sabia nunca evitar um gesto de impaciencia. Uma manhã por sinal nem almocei, pois abancando num restaurante que não frequentava habitualmente, o alambicado personagem tivera a desfaçatez de se vir assentar diante de mim, na mesma mesa... Ah! que desejo enorme me afogueou de o esbofetear, de lhe esmurrar o narizinho num chuveiro de murros... Mas contive-me. Paguei e fugi.
Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil—fôra o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não deixara de ser um amor—é claro—mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homemzinho loiro, engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança amanteigada, vir-me-hia um gosto humido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possui-la então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões...
Pois bem: e se as minhas repugnancias em face do corpo admiravel de Marta, tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava, fosse alguem que me inspirasse um grande nojo?... Podia muito bem ser assim, num pressentimento, tanto mais que—já o confessei—ao possui-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir tambem o corpo masculino desse amante.
Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quasi certo de que me enganava ainda; de que era bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas repugnancias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse, antipatisasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas nauseas.
Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de enjoo—a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilepticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos pápas—da gente que o misterio grifou...
Numa derradeira vontade tentei ainda provocar uma explicação com Marta—descrever-lhe sinceramente todo o meu martirio, ou, pelo menos, insultá-la. Emfim, pôr um termo qualquer á minha situação infernal.