De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo—foi-me impossivel relembra-lo numa estranha duvida...

* * * * * * * *

Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante ... os seus outros amantes...

Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não ignorasse as suas horas—todo o meu ciume desapareceria, não teria razão de existir.

Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, se apenas se ocultasse dos outros, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa, atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.

Não, não me enganara outróra, ao pensar que nada me angustiaria por a minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessario que ela me contasse os seus amores, os seus espasmos até.

O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo misterio. Daí a minha angustia—daí o meu ciume.

Muita vez—julgo—deligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo, evidencear-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martirio. Ela porêm, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afecto para tamanha prova de amor.

Se em face do meu ciume todas as outras obsessões haviam sossobrado, restavam-me ainda—como já disse—as minhas repugnancias incompreensiveis. E procurando de novo aclara-las a mim proprio, assaltou-me de subito este receio: seriam elas originadas pelo outro amante?

Eu me explico: