Na Porte Maillot, tomámos o tramway para Montparnasse, começando Gervasio:

—Então, Lucio, que lhe pareceu a minha americana?

—Muito interessante.

—Sim? Mas você não deve gostar daquela gente. Eu compreendo bem. Você é uma natureza simples, e por isso...

—Ao contrario—protestava eu em idiotice—admiro muito essa gente. Acho-os interessantíssimos. E quanto á minha simplicidade...

—Ah! pelo meu lado, confesso que os adoro... Sou todo ternura por êles. Sinto tantas afinidades com essas criaturas ... como tambem as sinto com os pederastas ... com as prostitutas... Oh! é terrivel, meu amigo, terrivel...

Eu sorria apenas. Estava já acostumado. Sabia bem o que significava tudo aquilo. Isto só: Arte.

Pois Gervasio partia do principio que o artista não se revelava pelas suas obras, mas sim, unicamente, pela sua personalidade. Queria dizer: ao escultor, no fundo, pouco importava a obra dum artista. Exigia-lhe porêm que fosse interessante, genial, no seu aspecto físico, na sua maneira de ser—no seu modo exterior, numa palavra:

—Porque isto, meu amigo, de se chamar artista, de se chamar homem de genio, a um patusco obeso como o Balzac, corcovado, aborrecido, e que é vulgar na sua conversa, nas suas opiniões—não está certo; não é justo nem admissivel.

—Ora...—protestava eu, citando verdadeiros grandes artistas, bem inferiores no seu aspecto físico.