E então Gervasio Vila-Nova tinha respostas impagaveis.
Se por exemplo—o que raro acontecia—o nome citado era o dum artista que êle já alguma vez me elogiara pelas suas obras, volvia-me:
—O meu amigo desculpe-me, mas é muito pouco lucido. Esse de quem me fala, embora aparentemente mediocre, era todo chama. Pois não sabe quando êle...
E inventava qualquer anedota interessante, bela, intensa, que atribuia ao seu homem...
E eu calava-me...
De resto, era outro traço caracteristico em Gervasio: construir as individualidades como lhe agradava que fossem, e não as ver como realmente eram. Se lhe apresentavam uma criatura com a qual, por qualquer motivo, simpatisava—logo lhe atribuia opiniões, modos de ser do seu agrado: embora, em verdade, a personagem fosse a antítese disso tudo. É claro que um dia chegava a desilusão. Entretanto, longo tempo êle tinha a força de sustentar o encanto...
Pelo caminho, não pude deixar de lhe observar:
—Você reparou que ela trazia os pés descalços, em sandalias, e as unhas douradas?
—Você crê?... Não...
A desconhecida estranha impressionara-me vivamente e, antes de adormecer, largo tempo a relembrei e á roda que a acompanhava.