—Um disparate!...
Uma raiva excessiva me afogueou perante a boçalidade do empresario, a sua pouca clarividencia. Pois se algumas vezes eu adivinhara nas minhas obras lampejos de genio, era nessas páginas. Mas tive a força de me conter.
Não sei bem o que depois se seguiu. O certo é que tudo acabou por o drama ser retirado de ensaios, visto eu não consentir que o representassem com o primitivo ultimo acto, e a empresa se negar terminantemente a monta-lo, conforme o parecer do director e dos principais interpretes.
Quebrei as relações com um e com outros, e exigi que me entregassem todas as copias do manuscrito e os papeis. A minha exigencia foi estranhada—lembro-me bem—sobretudo pelo modo violento como a fiz.
Ao chegar a minha casa—juntamente com o manuscrito original, lancei tudo ao fogo.
Tal foi o destino da minha ultima obra...
Decorreram algumas semanas.
As dôres físicas do meu espirito tinham regressado; mas agora dôres injustificadas—dôres pelo menos cuja razão eu desconhecia.
Desde que chegara a Lisboa—era claro—não procurara ainda nenhum dos meus companheiros. Ás vezes parecia-me até que gente que em tempos eu conhecera, me evitava. Eram literatos, dramaturgos, jornalistas, que decerto pretendiam lisongear assim o grande empresario de quem todos mais ou menos dependiam, hoje ou amanhã.
Só uma coisa me admirava: Ricardo, pela sua parte, não me tinha procurado nunca. O que, de resto, ao mesmo tempo se me afigurava bem explicavel; o mais natural até: êle percebera sem duvida os motivos do meu afastamento, e por isso se retraíra, sensatamente.