Escutando-o, o novelista acordava dentro de mim. Que belas paginas se escreveriam sobre tão perturbador assunto!
Emfim, mas não quero insistir mais sobre a minha vida no carcere, que nada tem de interessante para os outros, nem mesmo para mim.
Os ânos voaram. Devido á minha serenidade, á minha resignação, todos me tratavam com a maior simpatia e me olhavam carinhosamente. Os proprios directores, que muitas vezes nos chamavam aos seus gabinetes ou eles proprios nos visitavam, a conversar comnosco, a fazerem-nos perguntas—tinham por mim as maiores atenções.
... Até que um dia chegou o termo da minha pêna e as portas do carcere se me abriram...
Morto, sem olhar um instante em redór de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé.
Acho-me tranquilo—sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado dum outro. Permaneci, mas já não me sou. E até á morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face... A morte-real—apenas um sôno mais denso...
Antes, não quis porêm deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros, são muitas vezes os mais emmaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosimil—embora verdadeira.
Assim eu para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silencio, durante dez ânos, um crime que não cometi...
A vida...
1-27 setembro 1913—Lisboa.