Tinhamos uma larga cêrca onde, a certas horas, podiamos passear, sempre sob a vigilancia dos guardas, que nos vigiavam misturados comnosco e que ás vezes até nos dirigiam a palavra.
A cêrca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga—melhor: sobre uma especie de largo onde se cruzavam varias ruas. Em frente—pormenor que se me gravou na memoria—havia um quartel amarelo (ou talvez outra prisão).
O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.
Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistencia, por grandes gestos misteriosos, pois nada me podia interessar do que havia para lá dêle.
Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura—ennegrecido, lezardento, escalavrado—sobre raros indicios duma velha pintura amarela.
Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa, me contavam os maus tratos de que eram vítimas.
E o certo é que, ás vezes, se ouviam de subito, ao longe, uns gritos estranhos—ora roucos, ora estridentes. E um dia um prisioneiro mulato—decerto um mistificador—disse-me que o tinham vergastado sem dó nem piedade com umas vergastas horriveis—frias como agua gelada, acrescentara na sua lingua de trapos...
Aliás, eu com raros dos outros prisioneiros me misturava. Eram—via-se bem—criaturas pouco recomendaveis, sem ilustração nem cultura, vindas por certo dos bas-fonds do vicio e do crime.
Apenas me aprazia durante as horas de passeio na grande cêrca, falando com um rapaz louro, muito distinto, alto e elançado. Confessou-me que expiava igualmente um crime de assassinio. Matara a sua amante: uma cantora francesa, celebre, que trouxera para Lisboa.
Para êle como para mim, tambem a vida parara—êle vivera tambem o momento culminante a que aludi na minha advertencia. Falavamos por sinal muita vez desses instantes grandiosos, e êle então referia-se á possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida—fulvas de amor ou de angústia—e assim poder vê-las, ressentí-las. Contara-me que fôra essa a sua maior preocupação na vida—a arte da sua vida...