O apelo do meu advogado, brilhantissimo. Deve ter dito que, no fundo, a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a policia, segundo creio, procurou em vão.
No meu crime subentenderam-se causas passionais, seguramente. A minha atitude era romanesca de esfingica. Assim pairou sobre tudo um vago ar de misterio. Daí, a benevolencia do júri.
Emtanto devo acentuar que sobre o meu julgamento conservo reminiscencias muito indecisas. A minha vida ruira toda no instante em que o revólver de Ricardo tombara aos meus pés. Em face a tão fantastico segredo, eu abismara-me. Que me fazia pois o que volteava á superficie?... Hoje, a prisão surgia-me como um descanso, um termo...
Por isso, as longas horas fastidiosas passadas no tribunal, eu só as vi em bruma—como sobrepostas, a desenrolarem-se num scenario que não fosse precisamente aquêle em que tais horas se deveriam consumar...
Os meus «amigos», como sempre acontece, abstiveram-se: nem Luís de Monforte—que tanta vez me protestara a sua amizade—nem Narciso do Amaral, em cujo afecto eu tambem crêra. Nenhum dêles, numa palavra, me veiu visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Que a mim, de resto, coisa alguma me animaria.
Porêm, no meu advogado de defeza fui achar um verdadeiro amigo. Esqueceu-me o seu nome; apenas me recordo de que era ainda novo e de que a sua fisionomia apresentava uma semelhança notavel com a de Luís de Monforte.
Mais tarde, nas audiencias, havia de observar igualmente que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o medico que me tinha tratado, havia oito ânos, duma febre cerebral que me levara ás portas da morte.
Curioso que o nosso espirito, sabendo abstrair de tudo numa ocasião decisiva, não deixe emtanto de frizar pequenos detalhes como estes...
Passaram velozes os meus dez ânos de carcere, já o disse.
De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.