Dos tres só vieram dois, sendo apenas verdadeiro artista um, José Scórder, pois o outro não passava de um charlatão. Scórder, que era um modelador de merito,{28} prestou importantes serviços á fabrica, creando bons discipulos que lhe perpetuaram o nome.
Como o artista contractado na Allemanha, que não chegou a partir, apesar de haver recebido já um importante subsidio para as despezas da viagem, era quem devia tomar a direcção da officina de pintura, contractou o snr. José Ferreira Pinto Basto, n'aquelle mesmo anno, dois pintores de louça, João Maria Fabri e Manoel de Moraes, discipulos da Casa-pia de Lisboa. Aquelle morreu um anno depois de ter vindo para a Vista Alegre; este conservou-se ali até 1833, não como pintor, mas sim como esculptor, produzindo n'este genero bons trabalhos.
Tudo parecia agourar um feliz resultado, mas tal resultado cada vez se ia tornando mais demorado e incerto, de sorte que a empresa teria succumbido ás innumeras difficuldades que surgiram de todos os lados, se á testa d'ella e dominando tudo não estivesse a incansavel actividade, a poderosa energia, e invencivel perseverança do snr. José Ferreira Pinto Basto.
Os operarios estrangeiros conheciam o trabalho dos materiaes a que nos seus paizes estavam habituados, e não podiam fazer obra por aquelles que na Vista Alegre se lhes offereciam; a sua aptidão sendo como era puramente pratica não podia por si só crear ou modificar processos; necessitava que o genio inventivo e a sciencia viessem em seu auxilio. O snr. Ferreira Pinto reconheceu esta verdade, de sorte que em 1830 mandou seu filho o snr. Augusto Ferreira Pinto Basto, a França, a fim de estudar na fabrica de Sevres, verdadeira escola das artes ceramicas, os melhores processos e meios de investigação.
Ali recebeu aquelle cavalheiro sabios conselhos e{29} preciosas indicações do director d'aquella importante manufactura, o illustre Brogniart, que lhe fez ver a completa impossibilidade de se fabricar porcelana, sem o kaulin, que era o que faltava na Vista Alegre.
O snr. Augusto Ferreira Pinto regressou a Portugal trazendo amostras do kaulin empregado em Sevres, e depois da sua chegada os ensaios e experiencias continuaram incessantemente na Vista Alegre, mas sempre sem melhor resultado, até que em 1834 se descobriu o verdadeiro kaulin.
O snr. Ferreira Pinto tinha mandado vir de differentes pontos do paiz, por intermedio dos administradores do contracto do tabaco, de que elle era arrematante, amostras de quantos barros havia mais ou menos conhecidos, a fim de se ver se entre elles se encontrava o desejado kaulin. Estes barros eram todos submettidos a um exame chimico, mas com resultado sempre negativo para o fim que se tinha em vista.
Ao mesmo tempo que se procedia a estes exames um aprendiz de oleiro, fazia por conta propria algumas experiencias não só com aquelles barros, mas com outros que a pedido seu lhe eram trasidos por operarios que dos concelhos de Ovar e Feira vinham trabalhar nas construcções que na Vista Alegre se estavam fazendo. Entre estes barros veio o kaulin de Val Rico, d'aquelle ultimo concelho; trouxe-o um trolha e foi reconhecido pelo aprendiz oleiro que, no meio da sua humilde obscuridade, prestou o grandiosissimo serviço á fabrica de lhe descobrir a materia prima para o fabrico da porcelana, serviço este que não tinha podido ser prestado por os administradores do contracto do tabaco, do paiz inteiro, que d'isso haviam sido encarregados.{30}
O descobridor pois do kaulin empregado hoje na Vista Alegre foi Luiz Pereira Capote, natural de Ilhavo, que falleceu em 1870.
Descoberto o kaulin, principiou desde então a fabrica a produzir porcelana dura, datando portanto de 1834 o seu fabrico, que se foi aperfeiçoando gradualmente, de fórma que em 1840 principiou a Vista Alegre, a poder competir em qualidade com fabricas estrangeiras, o que não succedeu com os preços, pois produzia só caro.