O pedido de D. João II para que o futuro Mestre de S. Thiago fosse educado no convento de Jesus, foi feito a D. Joanna por o então Provincial dos Dominicos e que em tempo fôra tambem confessor de el-rei seu pae. Obtidas as licenças necessarias, mandou D. Joanna preparar-lhe aposentos por cima da casa da roda, para onde veio, não tendo ainda trez mezes, diz D. Bernarda Pinheiro, não trazendo em sua companhia ninguem mais do que a ama que lhe dava leite, mulher d'aqui natural.

Em 1485 desenvolveu-se de novo a peste em Aveiro, e D. Joanna viu-se obrigada a deixar o seu convento. Todos os seus biographos, incluindo mesmo D. Bernarda Pinheiro, affirmam que ella se retirou para o mosteiro das religiosas dominicas da cidade do Porto. Parece-nos que não dizem toda a verdade. Alli não havia nem nunca houve mosteiro algum de religiosas dominicas; alem d'isto, no archivo da camara de Coimbra existe uma carta autographa de D. Joanna, datada de 14 de janeiro d'aquelle anno, em que agradece aos vereadores d'aquella cidade a boa vontade que tinham ao seu serviço, e lhes offerece tambem a sua para com a cidade, na villa de Monte-mór (velho) para onde el-rei a mandara ir.[39] De Monte-mór dirigiu-se a Alcobaça onde el-rei então estava, deixando comtudo alli seu sobrinho D. Jorge.

Diz-se geralmente que fôra o chamamento de D. João II que alli a levara, e a causa d'isto as negociações d'um projectado casamento com Ricardo III de Inglaterra. Todos os biographos de D. Joanna são concordes em que ella fosse pedida em casamento por differentes Principes da Europa, e bem assim nos successos milagrosos que foram a causa principal na sua opinião, d'elles, de se não chegarem a realisar.[40]

A historia séria, debaixo do ponto de vista humano, a historia, como no seculo XIX se escreve, e como diz o sr. Pinheiro Chagas, não acceita nem regeita estes factos milagrosos, passa-lhe de largo; por isso abster-nos-hemos de apreciar aquillo que em materia de tão alta transcendencia se não basear em documentos sobre cuja autenticidade não haja a maior duvida. Não existe documento algum, ou ainda mesmo qualquer referencia nos chronistas contemporaneos, por onde se prove que D. Joanna foi pedida em casamento.

Todos os escriptores que se occuparam de D. Joanna, e que foram muitos, principalmente os que escreveram anteriormente ao seculo XVIII, affirmam que Luiz XI e Carlos VIII, de França, Frederico VI, d'Allemanha, e Henrique VIII, de Inglaterra, a pretenderam para esposa. Aquellas affirmativas, em quanto a nós, baseam-se unica e simplesmente na tradição, mas na tradição adulterada pelo espirito dos chronistas monachaes, cujo fim principal era sempre referir só o bem, e admittir facilmente prodigios, de forma que na mór parte das chronicas regulares, como diz um dos mais brilhantes luminares que o episcopado portuguez tem tido,[41] se destacam «tantos milagres absurdos em muitos casos para não dizer ridiculos, recebidos sem exame, abraçados com pouco credito do entendimento, propostos ou antes apregoados com mais boa fé e singeleza do que discripção[42]

Os biographos de D. Joanna sahidos com rarissimas excepções dos claustros, não podiam talvez deixar de cercar de successos milagrosos o vulto sympathico da filha de Affonso V, e é só assim que se explica a sua convicção, aliás na apparencia sincera, com que relatam factos, que de forma alguma podiam ter lugar, como são os do casamento com alguns d'aquelles monarchas. Seria demasiado longo, e até mesmo fastidioso, o rebater, n'esta parte, os biographos, cada um de per si, e mesmo porque todas as suas affirmativas estão compendiadas na Historia de S. Domingos, pelo classico e brilhante chronista d'esta ordem. Fr. Luiz de Sousa, seguiu é verdade, pela vereda dos mais chronistas, mas fel-o tão primorosamente, escreveu num estylo tão arrebatador, que a elle só podemos e devemos pedir as narrações dos factos de que nos estamos occupando e que temos de condemnar como absurdos.

Escreve fr. Luiz de Souza:

«Entraram n'esta conjuncção em Lisboa embaixadores de el-rei de França Ludovico Undecimo. Era a missão da embaixada, que el-rei houvesse por bem, que para mais firmeza de amor, e, paz, que entre as duas corôas havia, interviesse novo vinculo de sangue, contrahindo-se matrimonio entre a Princeza Dona Joanna, e o Delfim de França (tal é o titulo dos Principes d'aquelle reino). Não havia quem duvidasse em estar bem o negocio a el-rei D. Affonso seu pae, e ao reino, e á mesma Princesa; só ella, quando seu pae lho communicou para saber sua vontade, ficou dentro em sua alma com sobresalto, e desconsolação. Mas sem dar a entender o que sentia, desviou o tracto com rasões tão sabias, que el-rei ficou satisfeito d'ellas, e de sua tenção, não descontente. Disse, que o Principe Dom João seu irmão era moço, e enfermo; e parecia temeridade, em quanto não tinha edade para casar, nem disposição, e saude firme, desterrarem-n'a a ella para tão longe, sendo, como era herdeira e successora do reino; que se podia responder aos francezes com palavras geraes de boa amizade, e gosto do parentesco; porem differindo a resolução, e dando por causa os poucos annos do Delfim, que não eram mais de quinze, e tambem os d'ella; que havia mister ser mais crescida, e ter mais pratica do que lhe convinha saber para tal estado, e para em terras estranhas. Instou el-rei todavia, e porfiou, porque não tinha por acertado perder tal occasião. Mas emfim, considerando de vagar a resposta da Princeza, foi julgada por mais conveniente, e seguida por todos os do conselho.»

«Era rei dos romanos Miximiliano, filho do imperador Frederico, e da infanta D. Leonor, irmã de el-rei D. Affonso, diz fr. Luiz de Souza; como nascido de portugueza, e affeiçoado ao reino, desejou casar n'elle. Houve da sua parte muitas instancias, que a Princeza rebateu com seu valor, e emfim as desviou outro casamento, que se offereceu ao pretensor, e teve effeito com herança do senhorio de Borgonha e Flandres; porem, não tardaram outras que lhe deram maior cuidado. Estava herdado el-rei Carlos VIII, de França, para quem fôra pedida em vida de seu pae Luiz XI, como atraz escrevemos; pediu-a agora de novo. Pareceu a el-rei que convinha muito a seu reino a alliança, com tão poderoso principe para continuação da paz antiga, e segurança das navegações portuguezas.[43]

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