Só tinha chorado assim no dia da morte do pae. Uns homens mal encarados vieram metter o defuncto na tumba. A creança poz-se nos bicos dos pés e deitou a cabeça por cima de um dos lados d’aquella caixa preta: quando viu o pae lá dentro, muito amarello, imaginou que aquelles homens é que lhe haviam feito mal, que o tinham pisado muito e desatou n’uns taes gritos, que ninguem o pôde calar.
D’ahi por deante nunca mais chorara. Por isso os olhos lhe tinham tantas lagrimas e o peito tantos soluços.
O Piloto veiu no entretanto chegando-se para o dono, manso e manso; pousou-lhe as patas deanteiras sobre a perna e começou a lamber-lhe as mãos e a cara com uma grande meiguice, como se quizesse consolal-o n’aquella dôr.
O rapaz não teve alma de enxotal-o. Afigurou-se-lhe que não era o cão, mas a familia, a casa, todos os sitios por onde o Piloto o seguia, que estavam a chamal-o carinhosamente; que a mãe e a Anna lhe diziam ao ouvido, baixinho: «Não te vás. Podes ser feliz na tua terra, com a tua mãe, com a tua mulher!»
Levantou-se de chofre, poz a trouxa ao hombro, e galgou a rocha. Chegado ao cimo, estacou duvidoso:
—Mas então ia parar ao Castello!...
Um senhor da villa promettera-lhe uma vez, que se fosse com elle no tempo dos votos, o livraria de ir para soldado.
—Não lhe custava a deitar um papel na egreja, affirmava o rapaz.
Na pequena angra entrava n’este momento a canôa. Uma voz dizia asperamente:
—Onde estará metido aquelle diabo?