O velho então ganhou desembaraço e pouco tardou em contar-me toda a sua vida. Em certos pontos interrompia a narração para mirar o filho, extatico, embevecido, como se mal acreditasse que o pequenito doente e franzino de quinze annos antes, se tivesse feito aquelle rapagão cheio de robustez e capaz de vender saude.
—O que me tem dado muitas freimas, sr. capitão, é elle estar longe de mim. Nunca sei o que lhe terá acontecido ou póde vir a acontecer. Demais, aqui, ao meu pé, sempre me ajudava... Se por força tinha de saír da minha companhia, então que embarcasse para Demerara. Lá ao menos podia enriquecer.
—Ou já teria morrido, objectei.
E tratei de fazer-lhe comprehender o que ha de nobre no serviço militar, e quanto é culpado quem pretende fugir-lhe; mas o velho abanou a cabeça, e teimou em não se deixar convencer, a despeito da approvação, que os gestos do filho estiveram a dar-me constantemente.
Lembrei-lhe que o Jacintho, que saíra cabo alguns dias atraz e já mandava em praças mais antigas, era muito estimado pelos superiores, e disse-lhe até que d’aquella massa é que se faziam os officiaes como eu.
Não resistiu. Iam-se-lhe os olhos no seu rapaz.
Por cima d’aquellas faces, que os frios e as soalheiras tinham crestado e a velhice cortava de rugas, mas onde brilhavam ainda as rosas da saude, correram duas lagrimas de satisfação.
—O filho do Manoel de Jesus ainda está em soldado? perguntou elle ao Jacintho.
—Está e estará, respondeu este, com ufania. Se não sabe ler!...
—Deveras! Então sempre serviu d’alguma coisa o que fiz por via de ti. Lembras-te?