A instancias minhas, referiu-me a commovente historia do seu amor de pae—como tinha conseguido que o filho aprendesse a ler e a escrever.
A escola era muito longe, e elle, receioso de que o pequenito, que devia andar pelos seus seis annos, cansasse pelo caminho, acompanhava-o sempre, antes de ir para o trabalho, pelas manhãs asperas e geladas, quando o vento norte soprava rijamente, mais cortante do que navalhas. O Jacintho, em muitas occasiões, desatava a choramigar, dizendo que não sentia os pés e que já não podia dar passada. Então elle pegava-lhe ao collo, descalçava-o, desabotoava o peitilho da camisa, e aconchegava ao calor do corpo os pésinhos inteiriçados com o frio. Quantas vezes sentiu cãibras no estomago, dôres muito finas, depois d’aquelle contacto regelador!... Mas nem por isso arredava a creancinha, que ia inclinando vagarosamente a cabeça para o hombro do pae, até que por fim adormecia. Ao cabo de dois annos de escola, o Jacintho, «como tinha boa mimoira», já sabia ler por cima.
—E não havera de ser enganado, como eu tenho sido e hei de continuar a ser! rematou o velho, sentenciosamente.
Encareci-lhe com enthusiasmo o seu admiravel procedimento, porém elle recusou ingenuamente o elogio:
—Não faz mingua o senhor dizer tantas coisas. Se isto é o meu sangue!...
E pronunciava estas palavras, envolvendo o filho n’um olhar de ternura infinita, como as aves envolvem em macio frouxel os seus pequeninos implumes, na meiga concavidade dos ninhos.
* * * * *
Foi isto pouco mais ou menos—áparte a fórma—o que me contou o Silveira. Até aqui, tinha tido na voz uma suavidade, que sobremaneira contrastava com o aspecto marcial e severo da sua physionomia.
Remexeu-se na cadeira, saccudiu a cinza do charuto, puxou o bonnet para a testa e acabou assim a narração do caso:
Quatro annos depois, ainda eu pertencia a caçadores 12. O Jacintho, já na reserva, tinha casado e morava á ilharga da praça do peixe, que como sabes fica sobre o Calhau.