Com um dinheiro ganho pela mulher nas casas onde tinha servido, puzeram um botequim. A freguezia começou logo a acudir numerosa, pois que o rosto alegre e bonito da dona do estabelecimento era magnifico chamariz. De mais a mais a Rita arranhava o inglez, e d’este modo conseguia que a loja fosse preferida pelos marinheiros britannicos, excellentes consumidores de «bebidas de guerra».

O velho assistiu ao casamento do filho e voltou para o Estreito de Camara de Lobos. Com os seus sessenta e cinco annos bem puxados, ainda mourejava de sol a sol. Um dia, em que andava trabalhando perto de uma pedreira, ouviu o grito de: «Lá vae fogo!» annunciando a explosão da broca. Como devia haver mais duas advertencias eguaes áquella, não se apressou muito. Quando pousou o picão em terra, ouviu a segunda. Correu para fugir a algum pedaço de rocha, que a polvora explodindo arremessase a distancia, mas contou demasiado com a ligeireza das pernas e caíu. A broca rebentou, depois do terceiro aviso do bota-fogo, e um grande penedo veiu apanhar o pae do Jacintho, e partiu-lhe uma perna e um braço.

Levado n’uma rêde para a cidade, o pobre entrou no hospital da Misericordia e alli esteve tres mezes e meio.

A principio o filho, umas vezes só, outras com a mulher, ia vel-o quasi todos os dias, e carpir a desgraça do pae. Mas as visitas foram rareando.

—Se elle tem a vida tão apensionada! desculpava entre si o doente.

Nos ultimos tempos nenhum dos dois appareceu por lá.

Quando lhe deram alta, o velho estava aleijado.

A uns enfermeiros que o lamentavam, de o verem sair do hospital coxeando e arrimado ao bordão, respondeu cheio de confiança:

—Isso era bom, se eu não tivesse o meu filho!

Appareceu-lhe em casa inopinadamente. Não o receberam mal, e até lhe mostraram agrado, em quanto elle não se explicou.