Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da loucura que tinha feito em casar com o Jorge.
Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a sua amizade não lhe tinha feito conhecer.
Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio, que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade. Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a coisa sua.
Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de revelar-se-lhe.
O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.
—Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.
Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe, passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.
Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.
A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.
Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente, tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para que ella não gritasse.