—Pois sim, deixe ficar um homem.

Quando ia atravessando o guarda-fogo, deitei os olhos para o tenente, que, sem se importar com o caso, estava alegre a não poder mais. Eu já disse que elles tinham jantado bem.»

—Ó tio Bernardo, você está dizendo mal dos seus superiores! notou um dos ouvintes, a rir.

—Leva rumor! acudiu outro. Queremos o resto da historia.

«Elle ahi vae, disse o velho, que estando para acabar um conto, não era capaz de parar nem á mão de Deus Padre. Quando eu ia pela estrada abaixo, para o lado da cidade, mais os tres galuchos... tres não, dois!... tambem lá estava um soldado velho, o 27, que tinha andado commigo nas sarrafuscas da Patuléa... Ah! mas quando eu ia na estrada, sentia-me alliviado de um peso de seiscentas arrobas... Não ficava mais satisfeito deitando ao chão a mochila, depois de uma marcha de oito leguas. Teria a gente dado uns duzentos passos, e eu ia conversando a este respeito com o 27, eis senão quando a terra nos treme debaixo dos pés, e por um pouco não vamos todos de ventas ao chão. Ao mesmo tempo sentiu-se um estrondo, como se tivessem disparado alli ao pé uma duzia de peças de quarenta e oito! Que demonio seria aquillo?»

—O que era, tio Bernardo? perguntaram todos com interesse.

«Tremor de terra não seria, trovoada menos ainda.—O paiol! foi o grito que me saíu da bocca. Voltei para traz, a correr como um doido.

D’alli a um instante vi que não me tinha enganado. A parede do guarda-fogo, do lado da estrada, estava tão esborralhada que não ficara pedra sobre pedra. O paiol tinha ido pelos ares. Só restavam umas ruinas fumegantes.

Quando andavamos a revolver o enthulho, para ver se encontravamos o corpo d’algum d’aquelles pobres de Christo, appareceu-nos o cabo da guarda, que tinha escapado por estar longe do seu posto... a falar com uma rapariga. Maroto! Livrou-se da morte, mas precisava meia duzia de guardas de castigo.»