Quem lhe dava todos os amens, era uma irmã do pae, a tia Lauriana, que morava sósinha e que para algumas pessoas tinha fama de bruxa e de saber lêr a dita. As coisas que ella contou ao sobrinho, deixaram-o estupefacto, sem pinga de sangue. Entre outras, disse-lhe que ha gente que para atormentar um inimigo compra um coração de boi preto—boi de outra côr não serve—, pendura-o na chaminé, e todos os dias o vae espicaçando—quanto mais funda a picada, maior o tormento—com uma tesoura aberta em cruz, e dizendo ao mesmo tempo uma oração de resultados tão certos como os da reza da peneira, que serve para adivinhar o futuro. Á medida que o coração se torna escuro e mirrado, tambem o inimigo emmagrece, e perde saude, alegria, felicidade. Egualmente proclamou os effeitos da terra de cemiterio, colhida n’uma sexta feira á meia noite.
—Ui, homem, não te lembras da minha prima Luiza?... Não! Não te podes lembrar, disse-lhe a tia Lauriana. Pois a Luiza casou com um rapaz, que tinha tido amores com uma bruxa. E vae esta pegou em si e botou-lhe feitiços. E o pobre de Christo andava depois a gritar pela casa, a oviar como um cão e a esconder-se debaixo das mezas e cadeiras. Ás duas por tres a Luiza estava na mesma. Só muito depois melhoraram... Arranjei-lhe eu ... quero dizer, arranjou-lhe alguem o remedi o... e poz-se a benzer a cabeça de ambos ... e elles então lançaram de si uma coisa com alfinetes ... mas viveram pouco mais tempo.
O Francisco perguntou á tia o que pensava da Marianna e da irmã.
—Tu gostas d’ellas? Assim eu gosto, respondeu a velha. Ainda bem que fizeste o irmão gastar com a justiça quasi tudo o que tinha. Nem elle nem as irmãs se lembraram nunca de me dar nada.
—E serão feiticeiras as duas? Serão ellas que me fazem mal, mesmo encafuadas na toca?
—Não digo menos d’isso, redarguiu a tia Lauriana, e aconselhou-o a vigial-as, a ir ás escondidas ao pé da casa das primas. Se sentisse cheiro a hervas queimadas ou algum parecido com esse, podia ficar na certeza de que todo o seu mal vinha d’alli.
—As feiticeiras defumam sempre as casas, fingindo louvar o Santissimo Sacramento, quando por fim de contas dizia a velha com entono, o que ellas teem é pacto com o diabo, a quem rezam como a gente reza a Deus Nosso Senhor.
O Francisco não queria ainda lançar todas as culpas á Marianna.
Quem sabe se o bruxedo seria feito por algum inimigo, de que elle não desconfiasse?
* * * * *