Em todo o caso tratou de precaver-se contra a influencia malefica, e tambem para isto lhe foi a Lauriana uma abalisada conselheira.

Por traz da porta pendurou uma faca, de gume voltado para a rua e um chavelho de boi, a que todas as manhãs queimava a ponta, o que tambem fazia a um chifre de carneiro, que lhe era companhia constante. Ao mesmo tempo defumava a casa, rezando os quartos em cruz e deixando o fumo atraz de si. D’esta maneira, se as bruxas lhe entrassem, como costumam, pelo buraco da fechadura, tornariam logo a sair.

Ainda receioso de que estes meios não fossem bastantes, preparou-se para dar uma lição á feiticeira que conseguisse invadir-lhe o domicilio. Comprou uma navalha com cabo de ponta de veado, amarrou-lhe um rosario bento e pôl-a aberta, junto á cabeceira da cama. Mal visse uma bruxa, atiraria a navalha, de modo que se espetasse no chão. E tanto aquella como as outras que viessem tental-o, ficariam alli presas, remoinhando estonteadas em volta do rosario, como em torno de uma luz esvoaçam os mosquitos. Elle então levantar-se-hia da cama, armado com a competente verdasca, e moeria á bordoada as infernaes visitantes. Mas esperou-as debalde noites e noites, ás escuras, de olhos muito abertos, ouvido á escuta.

—Alguem de certo as avisou, explicou-lhe a tia.

O triste foi emmagrecendo; tornou-se amarello, escaveirado.

Os visinhos já lhe sabiam das crendices. Dois d’elles, uns doidivanas que ás proprias familias se não cansavam de pregar peças, tomaram o Francisco á sua conta. Moravam á ilharga, e uma noite, emquanto um lhe distraia as attenções, o outro conseguiu entrar-lhe em casa e amarrar a uma das pontas da colcha um cordel, que extendeu pelo chão até á rua. Meia hora depois o Francisco estava deitado, e já ia pegando no somno, tão estremunhado elle andava pelas continuas vigilias, quando sentiu a roupa a fugir.—D’esta vez é que eram ellas!— E atirou-lhes a navalha, mas, pela precipitação, a ponta não se cravou no solho.—Ainda lhe escapavam as malditas!—Só por vergonha não gritou por soccorro.

Ainda que lhe revelassem a verdade, não acreditaria. Da brincadeira tinha desapparecido qualquer vestigio, porque um puxão mais forte fizera o cordel escapulir da colcha.

Como não vissem o resultado da primeira facecia, os esturdios, tarde da noite, espalharam á porta do visinho uma porção de sal e de cinza. Quando o Francisco saía de manhã, para ir tratar das vaccas, sentiu uma coisa a estalar-lhe debaixo dos pés e ia tendo uma vertigem. Uma salgadeira á porta!... E de mais a mais tinha-a pisado!

Correu a chamar a tia.

A velha observou de longe e a medo, benzeu-se e murmurou: