—Eh senhor! Tu endoideceste! Por eu não querer que o Jorge ande enxovalhado por essas boccas ruins, é que tu!... Ainda em cima?... Sempre sou bem tola!

O velho conheceu que se tinha excedido, e ancioso por saber o que mais propalavam os maldizentes, moderou-se e murmurou:

—Dize lá o que querias dizer.

—Queria mas já não quero... Julgas talvez que não sou tambem amiga do Jorge? Pois ainda ha migalha estive quasi garreando com a ... cala-te bocca!... com uma certa pessoa, por não lhe poder ouvir que se elle não vae ás do cabo com a Rosa, é porque uma casa sempre se governa melhor, quando são dois, em logar de um só, a carregarem com as despezas.

—Dois?

Bei, Senhor! Pelos modos o sargento Luiz recebeu, pelo ultimo paquete, uma mancheia de patacas, que lhe deixou um tio lá de Lisboa...

—Fecha-me essa bocca suja, grande excommungada!

Juntando á palavra o gesto, o José Maria bateu-lhe com a palma da mão em cheio nos beiços, e, antes que a Luiza se recobrasse do susto, sahiu pela porta fóra, de escantilhão.

—Hei de contar tudo ao Jorge! resmungava elle, pela rua adeante. Não quero que ande vendido. Hei de contar-lhe tudo, e vae ser hoje mesmo! Que grande pouca vergonha!...

Com mais temor que resentimento, a Luiza foi á porta, para seguil-o com a vista. Não poude furtar-se a dizer com os seus botões que, tirante o Braga, todos os soldados do cerco do Porto eram homens de uma canna só.