—Sim, cala-te, que é o melhor! Só faltava que tambem tu me viesses ralar o interior, que já anda bem consumido. Só Deos é que sabe!...

E tendo lançado para longe o sacho com que andava cavando, levou ambos os punhos aos olhos, e desatou a soluçar. Coisa que não fazia desde creança, chorou—chorou lagrimas abundantes, que lhe escorriam pelo rosto e pelas mãos.

Certificou-se o José Maria de que mais ninguem podia ver o amigo, chegou-se a elle e passou-lhe um braço em volta do pescoço.

—Então! Que diabo! Isso não vale a pena! disse-lhe com meiguice. Pois ha mulher que mereça a vida de um homem? Não te lembras da minha serva de Deus? Bem amigo d’ella que eu era: vi-a morrer e ainda por cá estou. Com essas coisas dás cabo de ti.

—Tu, tu é que dás. Para que vieste bulir commigo? Deixasses-me quieto! E dizendo-lhe isto de mau modo, o Jorge arredou-se do camarada e ficou de costas para elle, sem comprehender que fosse dictada pela amizade aquella confidencia.

Pois não lhe trazia a certeza de que elle já receiava? Receiava, sim, mas não queria acreditar, desejoso de que o tempo viesse a embotar aquella duvida, e esperançado em que por fim se conhecesse que a rapariga estava innocente, como lh’o dizia o seu espirito cheio de rectidão. E ainda no peior dos casos, se em verdade a Rosa fosse má mulher, para que haviam de lh’o dizer, se mais dia menos dia elle mesmo descobriria tudo, com certeza?

Por isso nem queria encarar com o seu antigo camarada. Qualquer outro já teria pago bem caro o atrevimento!

O José Maria entendeu que se devia ir embora, o que era aliás seu desejo desde que alli estava.

—Haja saude, Jorge, e não me fiques querendo mal.

O outro encolheu os hombros desabridamente, sem mudar de posição.