—Não te ponhas com maus modos, homem! Aprender até morrer, bem diz o dictado.
E chegando-se mais, concluiu:
—Por me dares esse pago, não cuides que ouvindo algum marau dizer poucas vergonhas de ti, deixe de saltar-lhe para cima com vento fresco, apesar de velho e estropiado. Haja saude!
Ia a afastar-se, quando foi agarrado violentamente por um braço.
—Poucas vergonhas! Que poucas vergonhas dizem de mim? perguntava o Jorge, meio suffocado. Anda, põe já tudo em pratos limpos, se não queres fazer-me acreditar que te saiste com essa, para te vingares da minha resposta. Não! Não!...
E emendou, supplicante:
—Se não queres ver-me estalar de paixão, conta-me o que sabes, José Maria, conta-me o que sabes! Pelo amor de Deus!
Foi então que o outro lhe referiu por miudo não só o que tinha visto, mas o que andava nas boccas do mundo. Quando o ouviu falar na suspeita de que fosse connivente na sua infamia, o Jorge teve um ataque de raiva e quiz saber por força quem tinha contado aquillo, para lhe apertar as goelas, até lhe fazer deitar cá para fora toda a lingua malvada.
Apesar do que a revelação lhe fazia soffrer, reaccendendo lhe desconfianças, que a pouco e pouco se tinham ido aplacando, o seu primeiro impulso foi justificar a mulher, mostrar ao amigo que o tinham enganado, que a Rosa continuava pura como a neve. Se em S. João de Deus ella estava ao pé do sargento Luiz, era porque o medo do touro lhe fizera perder a cabeça. Pois o José Maria não a tinha tambem visto amarella como cera, quando os dois a foram encontrar? Demais, a Isabel, que tambem não podia ver o tal bonecro, explicou depois que não havia nada que se lhe dizer, e que até devia agradecer-se ao pobre rapaz o ter acudido á Rosa, quando todos fugiam assustados.
—Cantigas da viuva! objectou o José Maria. O que ella quiz foi desculpar a filha. Olha! Pergunta-lhe se tambem deves agradecer ao bandalho, o beijo que elle pregou em tua mulher!