—Olha que eu desfaço-te, grande diabo! E não te cae a cara de vergonha, por veres que sei tudo! Sempre era muito estupido!... Foi preciso que me mettesses a verdade pelos olhos dentro, ao avistares o sargento com outra mulher! Eu bem o reconheci, accrescentou o velho e apontou para o rival, que mal suspeitava o que alli estava acontecendo por sua causa. Ah! Padeces o mesmo que me tens feito padecer? Ainda bem! Ainda bem!
Ella ia responder com uma insolencia, mas calou-se, porque a vóz do sargento, subindo pela encosta, trouxe-lhe ao ouvido fragmentos de uma quadra do fado, de envolta com os arpejos da guitarra.
Sabia-a de cór, de a ter ouvido ao amante.
—Perdes o tempo a escutar, que não é para ti que elle está cantando! disse-lhe o Jorge, com sarcasmo.
Voltou-se enraivecida para o marido, mas, querendo feril-o mais cruelmente, descambou para a troça.
—Então não querem ver o fedôr do velho! ejaculou, com o dedo apontado para elle e atravez de uma gargalhada. Julga talvez que se o Luiz me não quizesse mais, ganhava com isso alguma coisa? Nicles, meu menino! Não é o mel para a bocca do asno.
E cuspiu-lhe outra risada.
O Jorge ouvia-a estupefacto, sem acreditar.
Para se vingar em alguem, a Rosa continuava nos improperios, como se a desesperação, que dias e dias tinha represado dentro em si, achando finalmente sahida, golfasse n’um vomito asqueroso.
—Julgou o mostrengo que era só appetecer uma raparigota, que ainda mal chegava a mulher, e chamar-lhe sua! Tal desgraça! Juntar a morte á vida!... Que peccado! O avô casado com a neta! Ah! Ah! Ah!