Ouvia-a e cuidava já não ser d’este mundo, ou que tudo se anniquilara em volta de si. Ainda os espreitava o sol por traz do monte, e elle julgava-se envolto nas trevas da noite.

—Pois aquella creança, que havia pouco se lhe afigurava tão innocente e pura, como nas tardes em que ella ia levar-lhe o jantar, muito rosada, de vestidinhos curtos, saltitante e alegre que nem um passarinho—aquella creança podia ser a malvada que para alli estava a falar?! Mais nojenta e descarada do que essas mulheres, que á noite, quando lhe succedia voltar para o castello mais tarde, o perseguiam pelas ruas da cidade, com as galochas de pau soando estridulamente nas pedras da calçada, e que se lhe offereciam desbragadas, em tróca de pouco dinheiro! Pois aquillo era a sua mulher, a sua querida mulher?!

No emtanto a Rosa tinha-se abeirado outra vez da escarpa, e com os olhos a brilharem seguia o barco, que se ia afastando de terra.

—Era aquillo, era! Peior ainda que as mulheres de má vida, podia dar lições a todas ellas!

E para que não existisse um monstro assim, o Jorge correu para a mulher, agarrou-a pela cintura e atirou-a com força pela rocha abaixo, dizendo:

—Anda! Vae ter com elle!

O corpo cahiu aos resaltos pela vertente e foi pondo salpicos de sangue nas arestas que o esfarrapavam, em quanto a voz do sargento Luiz garganteava ao longe, toda cheia de requebros:

Mal os meus olhos te viram

O meu coração te adorou,

Na cadeia dos teus braços