De joelhos heroes! Baixai a fronte altiva,
Que passa triumphante, aureolada e viva
A sombra d'outro heroe!—a luzitana gloria
Que ha um seculo morreu para viver na Historia.

É cedo inda talvez para a consagração;
Não 'stão extintas já as luctas da paixão;
E a treva—a emulação—debate-se na liça,
Emquanto não raiar o dia da Justiça.

Mas vós, a mocidade, a esperança do Futuro,
Que altivos caminhaes, com passo bem seguro,
Na senda gloriosa e ardua do Progresso;
Vós, que haveis de lançar ao solo do Universo
A semente feraz da grande Idèa-Nova,
Deveis ajoelhar perante aquella cóva,
Que encobre veneranda a ossada do gigante
Que ha um seculo cahiu em lucta triumphante.

Ide!… ide ensinar ás gerações vindouras
Que ha paginas de luz que são immorredouras
Na historia das Nações!
Dizei a vossos filhos,
Que estão calcados já os gloriosos trilhos
Que hão-de conduzir ao fundo de seu peito
A força da Justiça e a força do Direito!

II

A noite tenebrosa, a noite dos horrores,
Estendia feroz as suas negras cores
Sobre a Europa abatida e sobre a terra inteira;
Apenas o clarão sinistro da fogueira
Illuminava a custo aquella triste scena;
Sentia-se um rumor como o rugir da hyena,
Havia um cheiro forte e acre e nauseabundo
Subindo em espiraes pelo azul profundo;
A carne a crepitar!.. Os gritos lancinantes!..
Como orgia infernal de velhos Corybantes!

Uma sombra indecisa, impavida e soturna
Fluctuava ali á viração nocturna;
Era a sombra do Mal—o negro pavilhão
Que tinha escripto em sangue um lemma: Religião!
E sobre cada corpo, e sobre esses destroços.
Conjuncto informe e nú de carnes e de ossos,
Andavam a pairar abutres esfaimados,
Despedaçando ainda os membros trucidados!

Humildes, evocavam o nome de Jesus,
—O nome da Justiça, o explendor, a Luz;
Traziam n'uma mão um velho Breviario;
A outra segurava o facho incendiario,
Um Christo sobre o peito, aos hombros uma estola…

Era a turba feroz dos filhos de Loyolla.

Portugal acordou, emfim, do seu lethargo;
Esgotára de todo o calix mais amargo.