Um homem, um gigante, um genio portentoso
Erguera-se de pé, n'um brado poderoso,
E disse sem temor áquellas turbas vis.

«Hyenas! recolhei ao fundo dos covis!
Largai a vossa presa, oh tigres sanguinarios!
De joelhos, chacaes! malditos salafrarios!
Hei-de lavar com sangue o sangue da Innocencia,
Matar-vos como cães, matar-vos sem clemencia,
E arrojar, porfim, ás fauces do abysmo,
Os vossos corpos nús e o vosso Fanatismo…

«A verdadeira Fé succede à Hypocrisia;
A Noite terminou, reaparece o Dia!»

E o braço poderoso e forte de Pombal
Arrebatou da treva o velho Portugal,
Para lançar a Luz, para lançar a Gloria,
Sobre elle, que era só recordação na Historia.

Exhausto e abatido ao sopro da desgraça,
Vergado ao Fanatismo—esse tufão que passa
E tenta destruir os brilhos da Rasão—
Sentia emmurchecer na sua heroica mão
Os louros que colhêra ao sol de cem batalhas.
Calára-se o canhão; o fumo das metralhas
Ja não tostava a tez aos bravos defensores
De Diu e de Malaca!
Esses conquistadores
Que tinham offuscado o nome de Veneza,
Que tinham concebido a audaciosa empresa,
—Na febre do valor, febre de triumphar,—
De avassalar a terra e submetter o mar;
Esse povo de heroes, titanico, indomavel,
Que dera ao mundo leis e fôra inconquistavel,
Já não queria colher da Heroicidade a palma.

Elle cuidava só… na salvação da Alma!

III

As gloriosas naus, as naus conquistadoras,
Que levavam no tópe as quinas vencedoras,
Traficavam agora o oiro, os diamantes,
O topazio, o rubi, os limpidos brilhantes,
Que outr'ora o Oriente e hoje o Novo-Mundo
Lançavam sem cessar do seu ventre fecundo!

E todo esse thesouro, e toda essa riqueza,
Era p'ra abastecer a perdularia meza
D'essa turba fradesca—a turba de vadios,
Que não passavam fome e não passavam frios,
Emquanto cá por fóra os tristes proletarios,
Famintos, rotos, nús, sem pão e sem salarios,
Iam implorar ás portas dos conventos
As migalhas servis dos fartos alimentos!

Um rei fraco, imbecil, um rei dissipador,
Assim, à imitação do Rei—Inquisidor,
Lançava essa riqueza aos tigres de roupeta,
Que tinham branca a face e a Consciencia preta.