«Exc.ma e respeitavel senhora:
«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.a em seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.ma Snr.a D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.ma irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura; podendo V. Exc.a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae dirigida á snr.a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse parar ás mãos d'alguem, que, por má interpretação, tenha ficado com suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.
«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao ferido.
«É de V. Exc.a m.o att.o v.or e cr.o
«O tenente da 2.a comp.a de voluntarios do Minho.»
Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.
--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?
--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...
--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres sacrificar-te?!...
--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...