--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu primo já sabe d'esse facto?

--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe occultasse.

--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as acções que ennobrecem quem as pratica.

--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.

--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.

--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao quarto da Anna...

--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, que Deus tudo fará por melhor.

Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.

As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...

D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a filha.