Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.

O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já acompanhados do padre Alvaro e do medico.

II
MYSTERIO

«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de Bragança.»

(Chronica do seculo xv.)