Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do extremoso marido.

Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua cólera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria: