--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua mulher legitima.
--N'esse caso... se V. Exc.a me affiança...
--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a mentira... Para a capella, senhores!...
O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.
Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua respeitavel palavra.
O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!
De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava. Estava domado o leão!..
Por quem?...
Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]
Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia popular, no palacio de Leopoldo.