«A mamã teria partido immediatamente se estivesse aqui, mas um negocio muito grave obrigou deixar meu pae para emprehender uma longa viagem, acompanhada por um dos nossos criados. Escrevi-lhe esta manhã, e{241} mandei com a minha a sua carta, que lhe explicará tudo. Pobre mãe, como ella vai ser feliz depois de ter chorado tantas lagrimas! Em poucos dias ella irá a sua casa, e póde crer que terá restituido a vida a meu pae, a alegria a minha querida mamã, e a felicidade a uma familia toda.
«Meu pae encarrega-me de lhe dizer que meu irmão falla-lhe na sua carta de uma rapariga chamada Gella, que prenderam, e que foi sempre muito boa para com elle, e que nós não desejamos perseguil-a, visto ella não lhe ter feito mal algum, mas ao contrario ter concorrido para suavisar a triste sorte de meu irmão. Por isso meu pae deseja que se não castigue esta rapariga, e que a mandem para o hospital se estiver doente.
«Um dos nossos amigos, magistrado residente perto d'aqui, escreveu hoje mesmo ás authoridades conforme meu pae lhe disse para pedir que não continuasse o processo que diz respeito a Gella. Queira exprimir á senhora Deschamps o que nós quizeramos dizer-lhe de viva voz, e agradecer-lhe os cuidados maternaes, que fizeram esquecer a Adalberto o que elle soffreu entre aquella má gente. Aceite os protestos de profundo respeito de
«Camilla de Valneige.»
Dentro do mesmo sobrescripto havia um bilhete fechado para o pequeno.{242}
«Meu queridinho.
«Abraço-te muito, muito. A mamã partiu, ha oito dias, vestida de camponeza, acompanhada pelo fiel Gervasio. Tem tenção de ir a todas as feiras indicadas por... A nossa querida mãe estava de certo alli ante-hontem; mas de longe e no meio da multidão não te viu ou não te conheceu.
«O papá está bastante doente; comtudo começa a melhorar desde hontem. Oh! se tu o visses? Pediu-me vinte vezes a carta do senhor Deschamps na qual tu escreveste uma linha e o teu nome; lia sempre esta linha e chorava, como a mamã choraria se estivesse aqui.
«Não te atormentes, tudo se ha de arranjar. Não se fará mal a ninguem, e cuidar-se-ha em fazer bem á boa da rapariga. Mando-te vinte, quarenta beijos! Vou escrever a Eugenio e Frederico que estão no collegio. A nossa velha Rosinha está doida de contente; todos te querem muito e desejam vêr-te. Oh! que felicidade! quando estiveres ao pé de mim, no nosso Valneige, no meio de todos nós.
«Tua irmã