«Camilla».

Adalberto ficou contentissimo ao ler esta carta; mas teve o cuidado de não o deixar perceber. Não se devia saber que sua mãe,{243} disfarçada em camponeza o procurava nas feiras, e segundo as indicações d'alguem. Teria sido trahir o segredo de Gella e faltar á palavra d'honra pedida e dada; ora é impossivel faltar á sua palavra de honra sem se deshonrar. O pequeno deu prova d'uma grande prudencia, e aquelles que o rodeavam pensaram que um sentimento generoso, sem ser promessa alguma, fazia a familia de Valneige perdoar, por amor de Gella, tão boa rapariga e tanto para lamentar como filha d'um salteador.

Como se póde imaginar, aquelles sentimentos generosos, dos quaes não conheciam o verdadeiro motivo, causaram um certo espanto. A tia Tourtebonne esteve quasi a zangar-se. O senhor Deschamps assegurava que não teria levado tão longe as attenções, e que ao mesmo tempo que protegia Gella, como ella merecia ser protegida, teria feito perseguir seu pae até á fronteira; Julião accrescentava até ao fim do mundo.

A senhora Deschamps tomava facilmente o seu partido, e não pensava senão em divertir a criança, em pentear os cabellos de que a sua mamã tanto gostava, em fazer preparar as comidas que preferia, como bom caldo, boas costelletas, e tudo quanto podia fortifical-o. Conversava muitas vezes com elle, e fazia-lhe ler em voz alta historiasinhas, nas quaes uma moral muito pura se disfarçava sob os gracejos infantis.{244} Emfim era uma mãe a proteger o filho de outra mãe!

Sophia só dava attenção a uma coisa; a criança estava pallida e magra e ella queria tornal-a corada e gorda; e persuadida de que a arte culinaria é para isto um grande medico, inventava uns guisadinhos muito bons para Adalberto, afim de que elle comesse com mais appetite e engordasse mais depressa. Como só havia tres ou quatro dias para esta grande empreza, fazia-o comer muito, temperava bastante os molhos e offerecia-lhe entre as refeições uma meia duzia de bons petiscos.

Adalberto, privado de tudo desde muito tempo, foi sensivel á tentação, e, seguindo as insinuações de Sophia, comeu pouco mais ou menos todo o dia, para acabar de esquecer os nojentos caldos da casa do saltimbanco.

Comtudo lembrou-se das bellas e boas tradições de Valneige; «uma criança bem educada, tinham-lhe dito cem vezes, não deve nunca comer fóra d'horas; é golodice, torna o homem material, quer dizer, favorece n'elle os instinctos do animal.»

Por isso, no terceiro dia, Adalberto disse á senhora Juliana, que lhe agradecia as suas attenções, mas que tendo comido muito bem desde que estava na casa branca, não se lembrava já das sopas da velha Praxedes, e que não queria mais do que quatro comidas ao dia como em casa da sua mamã.{245}

—Mas a sua mamã não está cá.

—Não importa; comer sem necessidade fóra d'horas seria desobedecer-lhe, e nunca mais torno a desobedecer aos meus paes.