A presença de Adalberto ia curar seu marido, que só soffria pela sua auzencia. Oh! quantas alegrias juntas! Estava maravilhada, pensativa, commovida... Foi o momento que o bom coração de Sophia escolheu para offerecer uma bella omelette de dois ovos frescos, ou biscoitos, ou vinho com assucar, ou qualquer coisa, emfim! Sophia só receiava uma coisa nas grandes agitações da alma; era vêr a sua gente morrer de fraqueza. A senhora de Valneige, como é facil de suppor, não tinha a menor vontade de comer uma omelette; recusou-a, pois, o mais graciosamente possivel, e, despertada pelo offerecimento de Sophia do seu extase maternal, perguntou onde estava a senhora Deschamps.{247}

Esta desceu do seu quarto em quanto a cozinheira, para se consolar do que acabavam de recusar-lhe, offerecia um copo de vinho ao bom e fiel Gervasio. N'isto não fazia mais do que seguir os costumes da casa. A senhora Deschamps não podia receber qualquer pessoa sem lhe offerecer, como nossos paes, o pão e o vinho da hospitalidade. Comprehendia, porém, demasiadamente as sensações delicadas, para não as confundir com uma omelette ou qualquer outra cousa. É inutil explicar o genero de relações, que se estabeleceu entre as duas mães. Parecia que se conheciam ha muito. É porque, effectivamente, as almas nobres reconhecem-se mutuamente, e acham-se ligadas umas ás outras sem embargo de distancias.

A senhora de Valneige fallava á sua nova amiga essa lingoagem do coração, que só elle comprehende, e a senhora Deschamps respondia com a suave liberdade, que nasce d'uma sympathia subita.

Para ella não era a desconhecida mais do que a mãe da criança perdida, da criança que, durante seis dias, tinha achado sob este tecto o que esta idade exige: cuidados, brinquedos e ternura.

Quando o senhor Deschamps veiu, com a maior delicadesa, juntar-se ao trio, a conversação tornou-se mais positiva. Fallou-se do passado e do futuro, porque as duas mães só tinham visto o presente. Começaram então{248} as perguntas; tres ou quatro para uma resposta.

A castellã informou-se de todos aquelles, que tinham contribuido para salvar seu filho. Nomearam-lhe a tia Tourtebonne, Josephina e outros. Tudo se disse e tornou a dizer; a mãe estava insaciavel, fazia repetir tudo outra vez. Que de lagrimas a fizeram derramar aquellas vinte e quatro horas, passadas no subterraneo, entre a vida e a morte! Quiz descer áquelle sitio, que por pouco não tinha sido um tumulo; viram-na ler com horror as palavras escriptas na parede. Á noite mostrou desejo de lá descer outra vez, e alli, só, no subterraneo com o seu filhinho Adalberto, collocou-se, por uma d'estas ingenuidades de que o coração é capaz em todas as idades, porque nunca envelhece, de maneira que podesse vêr a linda estrella, que tinha consolado o pequeno, e a que elle chamara Adilia.

—Mamã, querida mamã, dizia o rapazinho beijando as queridas mãos de sua mãe, é preciso procural-a no céo para que o papá a conheça e tambem goste d'ella.

—Sim, meu filho, respondia gravemente a senhora de Valneige, teu pae ha de amal-a. Nem elle nem eu esquecemos nunca o que foi consolador para ti, o que te fez bem.

E, como a terna mãe olhava para seu filho com um amor inexplicavel, a criança, por uma delicada inquietação, perguntou timidamente:{249}

—O papá já não está zangado?