Os novos amigos fizeram um conhecimento cheio de benevolencia e de amizade.
Adalberto saltou ao pescoço da senhora Deschamps, que o abraçou como a um dos seus netos.
Conversaram, passearam, descansaram, repetiram vinte vezes a mesma idéa, variando os termos; a idéa de cada um era: estou bem contente!
Chegou a hora do jantar, comeram como se fossem quinze, apezar de serem só sete; depois, Adalberto e Tilly brincaram com o bom Natchès, que longe de soffrer com a sua inferioridade, lhes dizia com um ar de perfeito contentamento:
—Quando eu era palhaço não me julgava infeliz, mas agora vejo que o era muito! Ha só uma coisa de que eu tenho saudades, é de fazer{262} habilidades nas feiras. Lá isso era muito divertido, quando eu era palhaço!
Deitaram-se; cama aqui, cama acolá. A boa senhora Deschamps tinha achado meio de arranjar tudo; estavam pouco mais ou menos como os israelitas debaixo das tendas; mas que doce tenda que é a da amizade! Dormiram perfeitamente e acordaram bem dispostos.
No dia seguinte a senhora de Valneige quiz ir vêr Gella ao hospital, e levou comsigo Adalberto. Oh! Providencia! A pobre rapariga ia d'ali a uma hora fazer a sua primeira communhão. A fidalga teve a felicidade de estar ali, á cabeceira do leito, como uma mãe; o querido pequeno ajoelhou, e Gella, esclarecida, purificada, conheceu emfim o Deus de Adalberto, o Deus de quem está escripto que ama as suas creaturas.
A doente estava quasi em estado de emprehender viagem e de ir reunir-se a seu pae. No momento de lhe ir dizer adeus, Adalberto contou-lhe a scena do wagon. Fez-se como um clarão no espirito de Gella e olhou para a criança.
—Pequeno, disse ella baixinho, como d'antes, dirás a teu pae que acredito agora haver honra, e para lhe pagar rezarei todos os dias por ti; não posso dar-te mais nada, mas dou-te o que tenho.
Como percebeu que a senhora de Valneige a tinha ouvido, teve vergonha de tratar por tu o pequeno, e ajuntou:{263}