Adalberto faz um esforço supremo na direcção da planicie... Quem vê elle aproximar-se por uma rua transversal? Gella, pallida, inquieta e correndo atraz d'elle. A cabeça da criança perturba-se, passa-lhe pela idéa deitar-se-lhe aos pés, supplicar-lhe que o deixe fugir... Mas, diz comsigo, se ella tem com effeito o coração endurecido, estou perdido! E de mais, ella deve estar muito zangada commigo? É preciso fugir-lhe.

O excesso do desespero dá-lhe forças, parte como uma setta, não vê, não ouve nada; dir-se-hia que só lhe resta o poder de desapparecer, de se subtrahir á mais horrivel desgraça.

Gella tambem é agil; vai apanhal-o; os seus ligeiros pés devoram o espaço.

Mas eis aqui o campo; a criança avista uma casa isolada; baterá á porta, gritará, terão dó da sua desgraça e escondel-o-hão.

Ghega, arremessa-se á porta, bate, toca, chama, ninguem responde, parece tudo morto; as portas das janellas estão fechadas, é absoluto o silencio. O infeliz Adalberto ouve o respirar de Gella, e a bulha dos seus passos que se aproximam com uma rapidez incrivel. Emfim... eil-a... Elle dá a volta da casa, e vê diante de si uma fresta; ha pois alli uma adêga, uma casa de lenha, alguma coisa emfim que não é a casa do Saltimbanco. E depois, se{92} Gella o leva, prisioneiro fugitivo, não vai elle levar pancadas do Hercules, ou da velha, ou de Karik, ou de todos tres, e ser mordido pelo cão? Vale mais a fresta! É o desconhecido, e o desconhecido é a esperança!

Mette a cabeça, depois os braços, agarra com a mão uma barra de ferro que separa em duas a abertura, e volta-se com a destreza que dá sempre uma situação desesperada. N'este momento Gella com passo lento e cauteloso começa a andar de roda da casa deserta. Elle deixa-se escorregar, transido de medo, pelo muro abaixo, e vai cahir sobre não sei que, d'onde, com o peso do seu corpo, faz levantar uma nuvem de poeira acompanhada de um som desconhecido.

Onde está elle? a pobre criança não sabe, mas ouve o roçar de um vestido na barra de ferro da fresta; Gella parou, chama, escuta, falla:

—Pequeno, estás ahi? responde-me, dize-me se estás ahi?

Mais morto do que vivo, Adalberto fica mudo, espera mesmo para respirar que a rapariga esfalfada, arquejante se afaste, perdendo talvez o rasto do fugitivo.

Quando o silencio se restabelece, a criança conserva-se no mesmo silencio, e agora, que Gella o não persegue, quereria ouvir ainda a bulha dos seus passos; mas nenhum som lhe chega aos ouvidos a não serem oito pancadas vagarosamente{93} dadas por um relogio, a que um homem sem duvida deu corda antes de deixar a casa.