Foi pois habitada, ou pelo menos visitada, não ha muito tempo esta casa? Mas quando voltarão para ella? E elle como sahirá d'ali? Não lhe tinha vindo esta idéa quando Gella estava perto d'elle; agora comprehende a sua desgraça, e essa desgraça assusta-o.
Victima de novo terror, torna-lhe a idéa de que, com certeza, Gella seria boa e o seu coração se commoveria, vendo uma criança abandonada. Não lhe tinha ella dado muitas vezes provas da sua natural bondade? Sim, deveria ter-se fiado n'ella, e pode ser que ainda seja tempo?
Grita, chama!
—Gella! Gella!
Mas escutando, ouve gritar e repetir duas vezes:
—Gella! Gella!
Esta voz, que diz o que elle disse e parece a sua, fal-o tremer; os cabellos molham-se-lhe de suor, as pernas vergam, os dentes batem; mas lembra-se de repente que ha em Valneige um echo no parque, perto da neveira, e que o seu papá escarnecia d'elle quando tinha medo do echo, visto não ser um ente invisivel, mas uma bulha repetida por uma causa muito natural.
Tendo-lhe passado mais o medo, cahe meio deitado e resigna-se a esperar.
—Que oito horas! diz comsigo, quanto tempo{94} será preciso esperar até que o dia volte! E quando voltar o dia, como sahirei d'este buraco?
Não ousava mover-se, temendo encontrar algum obstaculo no chão, ou objectos que podessem feril-o. O somno não vinha interromper a sua inquietação; pelo contrario, estava agitado, abria muito os olhos, e cruzavam-se-lhe na cabeça, n'aquella noite, mais idéas do que ordinariamente passavam por ella em todo um dia.