A luz da lua não descia até ao fundo da adêga; um canto só estava allumiado, e n'este angulo, Adalberto via uma coisa preta, tão comprida, como duas vezes a sua mão quando muito, mas seguida d'um traço preto que, collado por assim dizer á parede, se inclinava comtudo algumas vezes ora para a direita, ora para a esquerda.

«Que é aquillo!» perguntava a si mesmo Adalberto, cujos olhos inquietos não largavam o objecto mysterioso, sem poder comtudo imaginar o que havia n'aquelle canto. Esta nova preoccupação juntou-se ás outras. Que noite! A criança estava sósinha nas trevas, sem ao menos ter medido com os seus passos a prisão e dizendo comsigo:—Quando eu tiver fome, quem me dará pão? Algumas vezes pensava que nunca mais teria fome, porque era muito desgraçado.

Deram nove horas no meio d'esta grande tristeza. Como elle se voltasse para o outro{95} lado para descansar da sua incommoda posição sobre aquella especie de cama empoeirada, avistou pela fresta uma linda estrella que parecia estar ali só para elle. Viu essa estrella com verdadeiro reconhecimento; era uma coisa consoladora para uma criança abandonada e como que enterrada viva; e depois esta vista dava-lhe pensamentos mais socegados do que os pensamentos da terra. Dizia ingenuamente:

—Foi Nosso Senhor sósinho que fez aquella estrella, e como sabe tudo antes, sabia quando a estava fazendo que um pobre rapazinho a veria por uma fresta quando tivesse perdido o seu papá, a sua mamã e toda a gente.

Esta lembrança, junta ao enternecimento que lhe causava a bella e solitaria estrella, fez-lhe chorar lagrimas, cuja doçura elle ainda não conhecia, e que alliviaram seu peito opprimido. Sentia-se uma creatura abençoada que, por estar a oito pés debaixo da terra, não estava menos presente aos olhos do Creador. Derramando, sem querer, lagrimas que o consolavam realmente, dizia a Deus as palavras mais doces, de maior confiança; era a sua oração da noite, e quando a acabou, continuou a olhar para a estrella, e, apezar do frio que começava a sentir, apesar da tristeza que enchia o seu coração, teria talvez podido adormecer defronte d'este cantinho de ceo azul, se não fosse como que forçado a voltar a cada instante os olhos para o canto para vigiar o{96} objecto negro, que estava sempre ali, e cuja extremidade mexia de vez em quando, deixando ao prisioneiro uma duvida que lhe era insupportavel.

O relogio deu dez horas. Parecia á criança haver já muito tempo que vivia n'aquelle subterraneo, e, a dizer a verdade, sem a estrella teria desanimado; mas lá estava bella e brilhante, como uma joia cahida da mão do grande Rei, e Adalberto dizia-lhe:

Fica ahi, minha linda estrella, oh! fica não te vás, não me deixes só! Tu és a minha estrella, bem minha; e, como os sabios dão um nome a tudo quanto brilha lá em cima, eu, que não sou sabio, dou-te um nome, o melhor que eu sei, chamo-te como a mamã, Adilia, porque me fazes bem. Emquanto eu te vir, terei coragem; e quando sahir d'aqui e tornar a encontrar meus paes, procurar-te-hei ainda, e, tu verás, olharei para ti toda a minha vida!

Fallando á sua nova amiga, volta-se para o canto da parede por um movimento que se tornou nervoso e o que vê elle?... o objecto mysterioso tinha mudado de lugar, tinha andado e andava ainda; vinha para o lado do pequeno. Não havia duvida, era um grande rato preto, um d'aquelles que Gervasio se esforçava por fazer cahir na ratoeira, dizendo que aquelles animaes mordiam.

Adalberto não viu mais a sua estrella, nem{97} o céo azul, nem as suas bellas esperanças, mas unicamente o gordo rato preto, que vinha ás escuras como um traidor, e sem que o prisioneiro podesse defender-se visto que não ousava mexer-se, não sabendo de que estava rodeado. Novo susto!

O pezar do pequeno de Valneige já não era um pezar de enternecimento, que elevasse a sua alma tão bem formada por bons paes; era um horror instinctivo por um animal perigoso; era preciso passar assim toda a noite e a pendula fez soar nas trevas onze horas.{98}