[CAPITULO VIII]
[Adalberto dava que pensar á senhora Tourtebonne.]
Ha pessoas que querem sempre saber como acaba o que vêem começar. D'este numero era a honesta vendedeira, que nós ouvimos fazer perguntas a Adalberto. Tinha ficado parada diante do seu carro de mão, seguindo com os olhos, o mais longe possivel, o pequeno que corria.
A tia Tourtebonne, era o seu nome, experimentava uma continua necessidade de expansão; dizia a todos o que pensava, e como a sua unica occupação era andar com o seu carro por todos os bairros, tinha por confidente intimo a cidade inteira. Pouco importava que lhe respondessem{99} ou não; o essencial era communicar os seus pensamentos; por isso acontecia constantemente acabar de contar á mulher do cortador a historia de que a tendeira distrahida tinha ouvido o principio. A querida mulher era conhecida de todos, e estimada porque era obsequiadora, como o são em geral as pessoas que gostam de se metter em tudo. Não temia incommodar-se pelos outros, e, com certeza, se fosse preciso para fazer um serviço fallar tres horas seguidas, teria fallado quatro.
Como já havia quarenta annos que andava pela cidade, sabia de cór as ruas, as casas e os habitantes; era quasi como um diccionario, que basta folhear para se achar a palavra que se procura com as indicações desejadas. A tia Tourtebonne estava tanto em dia com o que se passava, graças ao seu commercio e á sua perspicacia, que tinha sido chamada bastantes vezes como testemunha, perante a justiça. Esses dias tinham sido dias de triumpho para a excellente mulher; a sua memoria era tão fiel, as suas observações tão minuciosas, a sua palavra tão facil, que na verdade tinha dado grandes esclarecimentos sobre os negocios de que se tratava. Tambem, as pessoas que não andavam pelo bom caminho evitavam-na como se fosse lume; escondiam-se d'ella para fazer o mal, como quem se esconde de todo o instrumento de publicidade.
Voltando ao que nos interessa; apenas a tia{100} Tourtebonne perdeu o rasto de Adalberto, voltou-se para o dizer a alguem, e não viu senão o gordo Baptista, personagem pesado, enfadonho e improprio para a conversação. Era o mesmo, não estava ali mais ninguem, e como elle não vendia n'aquelle momento nem harenques nem queijo, duplo perfume commercial de que elle se occupava, podia sem indiscrição fazel-o ouvir de boa ou má vontade o que lhe quizesse contar.
—Então já se viu uma coisa assim? Um homemsinho a quem eu ia ensinar o caminho, e que me escorrega dos dedos?! Que diz a isto senhor Baptista?
O casmurro Baptista, que não dizia nada, porque não se tratava de harenques, nem de queijo, fez hum! com voz forte e rouca. Era uma maneira airosa de se livrar de todos os negocios que não diziam respeito ao seu duplo commercio.
O senhor Baptista não se interessava absolutamente senão pela sua venda e pelo seu cachimbo, que era para elle o symbolo d'uma immortal tranquillidade.
Dar um passo, olhar para o que se passava, procurar tirar consequencias d'um facto, tudo isto lhe parecia um inutil augmento de trabalho; por isso tambem pouca importancia lhe davam na cidade de cinco mil almas que habitava, onde as bisbilhoteiras sobretudo o consideravam como um zero. A tia Tourtebonne era capaz de dar valor a um zero se ella o precedesse,{101} quer dizer se chegasse a adaptal-o a um assumpto escolhido por ella. Este famoso hum que o bom do homem applicava a tudo não a satisfez nada, e replicou vivamente: