—Ah! vossemecê viu-os? Pois bem! quer que eu lhe diga? não faço grande conceito d'aquella gente. A pequena é uma magrizela, tem cara de fuinha; o rapaz tem umas grandes bochechas, mas parece aparvalhado! é que lhe teem batido de mais. A rapariga maior parece um tambor mór; é bonita, mas faz-me o effeito d'uma dançarina de feira, com a sua saia curta, e cabello mal penteado. Este pobre pequeno, é talvez uma criança furtada? Pois não! tem-se visto. E é bonito apezar do fato ser feio. Ah! se é d'elles, não dá ares da familia. É loiro, delgado, tem uns pulsosinhos de estorninho, a pelle fina e branca, parece uma criança que teve outra criação... Olhe, olhe, senhor Baptista, acolá vae o papá, é preciso chamal-o.{106}
—Eh! ouça cá, ó senhor! por aqui! É o seu pequeno que procura, com uma fita doirada no cabello?
O Hercules a esta voz voltou-se e deu tres passos para a vendedeira, emquanto esta continuava:
—Eu bem vi que elle procurava a sua gente, e quiz fazel-o parar; mas qual historia! é como o cão do João, quanto mais se chama, mais elle corre. Mas é preciso que vossemecê o ache. Escute, se o rapaz quer fazer das suas, vou ensinar-lhe a vossemecê o meio de o apanhar. Conheço este bairro, e os outros; ha, a vinte passos d'aqui, um commissario de policia que tem sempre gente para mandar para a esquerda e para a direita; eu vou conduzil-o lá, vossemecê diz-lhe o seu negocio e elle lhe fará achar o pequeno.
Apenas a boa da mulher tinha acabado esta phrase, que o Hercules, até então impassivel como de costume, abriu uns grandes olhos, e, fingindo affirmar-se bem, como se avistasse o pequeno na direcção da igreja, deitou a correr para aquelle lado e desappareceu.
Não se pode descrever o espanto da tia Tourtebonne; ficou de braços cahidos em frente das suas maçãs reinetas do Canada, seguindo com olhos penetrantes o Hercules, que de certo não procurava coisa alguma, porque ella ao luar não distinguia mais do que tres crianças cujos nomes lhe eram familiares.{107}
Teve a felicidade de achar, em falta de melhor, o senhor Baptista para lhe dizer:
—Então não vê isto? é uma criança roubada. Primeiro, este homem tem do diabo; e depois não reparou nos seus olhos quando lhe fallei no commissario de policia?
—Hum!
—Pobre pequeno! e seria bonito como um amor se estivesse penteado, e vestido como toda a gente; ai! que dó tenho d'elle! pobre cherubim! A prova de que ha alguma coisa n'isto tudo, é que quando eu lhe perguntei o seu nome respondeu-me Adalberto, e depois, depressa como se tivesse medo: Não, não, não! uma criança ordinariamente diz tudo com franqueza, e não esconde o seu nome. Que pensa d'isto, senhor Baptista, vossemecê que teve um filho, o seu pobre Augusto?