Ao nome de Augusto o mercador pareceu sahir do seu lethargo, e respondeu á tia Tourtebonne;
—Penso como vossemecê, que é uma criança roubada.
O senhor Baptista vivia n'uma especie de somnolencia a respeito das coisas d'este mundo, salvo o seu commercio. Havia comtudo um cantinho do seu coração que não dormitava; aquelle onde se conservava, na sua graça infantil, a imagem do seu pequeno Augusto, que elle tinha visto morrer na idade pouco mais ou menos do pequeno de Valneige. Nunca{108} se invocava em vão esta lembrança, e, em memoria de Augusto, o tranquillo Baptista sahia sempre do seu adormecimento.
—Então? vejamos, disse a vendedeira, o que se ha de fazer? Eu, primeiro do que tudo, não posso ficar assim, não dormiria quanto preciso. Pensar que a estas horas, ha uns pobres paes que procuram o seu filhinho, que lhes roubaram, e eu ficar aqui, diante das maçãs, sem dar um passo para que o achem! não, não é possivel. Olhe eu nunca tive filhos, infelizmente para mim; mas gosto das crianças, quero-lhes bem. Ah! se eu os tivesse tido, como tomaria cuidado n'elles! parece-me que os dependuraria todos ao meu pescoço com medo de os perder.
A tia Tourtebonne, dizendo isto e toda inquieta pensando em Adalberto, pôz-se a chorar, como ella fazia de tempos a tempos, pelas crianças que nunca tinha visto.
Depois, tendo tirado da algibeira um grande lenço de quadrados, enxugou os olhos e tornou a sorrir. Tudo era verdade na boa mulher, mas as impressões succediam-se rapidamente.
—Mas é tarde, são horas de nos deitarmos. Se nós fizessemos antes uma declaração ao commissario de policia? Diga, o que acha senhor Baptista? vossemecê que gostava tanto do seu pequeno Augusto? hein! se lh'o tivessem roubado?{109}
—Vamos ao commissario, respondeu o bom do homem, a quem a emoção da vendedeira, junta ás proprias recordações, acordou quasi completamente; deixe-me só fechar os postigos e estou ás suas ordens.
Os postigos fechados, o vendedor metteu por um momento o pequeno carro da tia Tourtebonne no seu pateo, cortejou, pediu desculpa e offereceu cortezmente o braço ao seu mais antigo conhecimento; era assim que lhe chamavam, porque na cidade de G... era ella com effeito o mais antigo conhecimento de quasi todos aquelles que a viam passar havia quarenta annos. O seu coração inflammavel, a vivacidade do seu fallar, as suas maneiras amaveis tinham-lhe conciliado esta especie de affeição que se basêa sobre um fundo de estima, e sobre o aturado costume de sentir alguem andar de roda de si. Quando se vê uma pessoa todos os dias, necessariamente se ha de gostar um pouco d'ella, ou tomar-lhe zanguinha; e ninguem se lembrava de antipathisar com aquella boa cara vermelha, rodeada de uma touca bem branca, e que sorria a toda a cidade como a uma amiga de infancia.
Os pobres, e sobretudo os pequenos mendigos, encontravam-na com grande gosto, porque em lugar de deixar a sua fructa estragar-se, ia dando-a pelo caminho quando não tinha podido vendel-a, e dizia: