—Não importa, antes quero morrer.
Respondendo antes quero morrer, o desgraçado tocava instinctivamente na escada de corda, unica ligação entre elle e o mundo. Comtudo, por outro lado, tinha tão grande medo da vida que lhe iam dar, que, tentando um ultimo esforço, foi pôr-se de joelhos defronte da fresta, no sitio onde a rapariga podesse talvez vêl-o, e, estendendo-lhe os braços, como se ella fosse a Providencia, disse-lhe:
—Oh! menina Gella, se eu subir deixe-me fugir pelo campo! Pode ser que me tomem por um ladrão e que me mettam n'uma prisão, e então terei de comer. Mas, rogo-lhe, não me leve! Oh! não me leve! deixe-me fugir!
—É impossivel, meu pobre pequeno!
—É sim! verá que é possivel! Oh! não diga que não; supplico-lhe pelo amor Deus!
Adalberto lembrou-se que não conheciam Deus na casa do saltimbanco. Disse-lhe então com ternura.
—Tenha dó de mim, pelo amor d'aquelles que estima.{134}
E, como ella não respondia, perguntou-lhe:
—Nunca gostou de ninguem?
—Palavra que não, disse bruscamente Gella; depois accrescentou com uma voz cheia de meiguice: mas gosto de ti agora, de ti, meu pobre pequeno, e deixei que me dessem pancadas para obter a promessa de que te não fariam mal.