Teve então logar uma scena horrorosa, que se não pode descrever. A colera do cigano, excitada pela falta de vigilancia de Gella, tinha crescido de hora para hora; fez explosão. Tinha promettido não bater no fugitivo, e cumpriu a palavra; mas o seu furor voltou-se contra a filha. Por causa d'ella, eram obrigados a mudar por em quanto de itinerario, e a tornar a passar o Rheno, afim de deixar socegar os boatos que não deixariam de correr pela cidade. Palavras fortes e entrecortadas sahiram primeiro dos seus beiços contrahidos pela raiva, depois Hercules deitou um olhar sobre Gella, que muito bem conhecia, e que parecia o do tigre em frente da sua presa. Algumas{140} palavras imprudentes, que ella pronunciou, acabaram de o irritar, e cahindo sobre a desgraçada espancou-a!
Adalberto via-a sem defesa, prostrada no estreito corredor, gemendo, pedindo perdão!... Inutil! o pae, fóra-de-si, parecia ter-se esquecido de que ella era sua filha, e querer dar cabo d'ella.
O pobre pequeno, estendia os braços para a sua victima, recebia algumas vezes sôcos e pontapés, que eram destinados para ella, e ninguem se mexia na casa do saltimbanco, a não ser a pobre Tilly que, apenas coberta com a sua camisinha, acudiu chorando, de mãos postas, como um anjo de Deus por elle mandado para defender uma alma contra o demonio. Quando ella appareceu, Adalberto julgou que a matariam, mas a Providencia mandando-a havia-lhe dado do seu poder.
O Hercules, que tinha descarregado a sua colera, olhou para ella envergonhado; proferindo a mais terrivel das suas blasphemias, sahiu e foi sentar-se na almofada da carruagem. Alguns minutos depois, duas ou tres chicotadas applicadas ao cavallo pozeram a caminho a casa do saltimbanco. Era preciso passar depressa o Rheno.
Cahiu sobre a desgraçada e espancou-a. (Pag. 140.)
Gella, pallida e quasi desfallecida, ficou estendida entre Adalberto e a pequena Tilly; mas a velha chamou esta bruscamente e ella apressou-se a obedecer. Quanto ao cativo ficou junto d'aquella que lhe tinha dito: «Gosto de{141}
{142}
{143} ti,» e julgou que ella ia morrer, porque o sangue corria, pobre rapariga, e ensopava-lhe os seus cabellos d'ebano.
—Tu vês, disse-lhe ella baixinho, com os olhos sempre fechados, se te fores, em quanto estiveres a meu cargo, elle matta-me!
N'este momento, diante de Gella e de Deus, o desgraçado pequeno esqueceu o seu paiz, a sua familia e a si proprio; viu só o sangue que corria por amor d'elle, e, exaltado pelo duplo sentimento de uma devoção profunda e de um igual reconhecimento, deitou-se aos pés da pobre rapariga e fez este juramento:
—Ó Gella, eu juro que nunca mais fugirei, em quanto estiver a seu cargo; dou-lhe a minha palavra de honra!