Gella abriu os seus grandes olhos cheios de lagrimas, as mais amargas que se podem chorar n'este mundo, fitou-os nos olhos meigos do pequeno de Valneige e respondeu apenas:

—Acredito-te.

A criança viu-a soffrer toda a noite. Lavou-lhe a cara magoada e os cabellos ensanguentados; não sabia o que havia de imaginar para lhe fazer bem, e dizia-lhe baixinho, muito baixinho: «Coragem! porque ha um céo!»

No dia seguinte, quando viu o Hercules, Adalberto sentia-se como esmagado pelo seu juramento: era não só o prisioneiro d'esse homem barbaro, mas ainda, e muito mais, o prisioneiro da amizade reconhecida.{144}

[CAPITULO XI]

[Adalberto tinha escripto o seu nome na parede.]

Com a volta da primavera tinham-se aberto as taboinhas d'aquella casa branca: e que singela e bonita ella era!

Vêde como está feliz a familia que a habita, por tornar a achar-se n'ella! Longe do bulicio das cidades parece um ninho entre as folhas. Não é a riqueza; não é tambem a pobreza. Pode viver-se alli socegado, sem custar muito parecel-o. Felizes aquelles que se contentam com pouco!

D'este numero eram os tranquillos donos d'aquella pequena casa. Tinham sido novos como toda a gente, mas já o não eram. N'elles{145} o gosto pelo campo era natural. O senhor e a senhora Deschamps tinham passado os seus primeiros annos dizendo, a passear, mau grado seu, nas ruas de uma grande cidade: «quando os nossos filhos casarem iremos plantar as nossas couves.»

Ora, as crianças apenas começavam a comer e ainda usavam touca. Foi preciso esperar trinta annos.