Nunca se viu esposos que melhor se combinassem. O reciproco desejo da felicidade tinha apagado as pequenas differenças, de modo que o senhor, que detestava o créme de chocolate, tinha acabado por comer d'elle. Ainda mais, a senhora, que antipathisava com os cães, supportava de boa vontade o valente Tom, de que seu marido gostava.

O senhor e a senhora Deschamps dedicavam o inverno ás suas filhas casadas, vivendo como ellas e ajudando-as com os seus cuidados, os seus conselhos e o seu amor. Chegado o verão, faziam dez leguas em diligencia para o irem passar socegado na casa que um parente lhes tinha legado, com um pequeno bosque cheio de sombra, um jardim cheio de flôres, um pequeno lago abundante de peixes, e por toda a parte sol, perfumes, o campo, emfim, como elles d'antes sonhavam. O isolamento d'aquelle logar era o seu maior encanto. Seria preciso dar duzentos passos, pelo menos, para ouvir dizer mal d'alguem.

Todos se estimavam n'essa casa, a começar{146} pelos donos d'ella. Eram servidos por uma estimavel criada chamada Sophia, que justificava o seu nome pela prudencia, ordem e economia que tinha em todas as coisas. Não se podia dizer se ella era cosinheira, criada de quarto, encarregada da capoeira ou da dispensa. Dependia tudo das horas e das circumstancias.

Para simplificar chamavam-lhe a governanta Seu marido, o honrado Julião, era primeiro do que tudo jardineiro, depois varredor, criado, n'uma palavra factotum. O pessoal da reduzia-se a isso: dois bons casaes em tudo.

Quando ao resto, havia Tom, excellente no fundo, mais coração do que cabeça; prendas ordinarias, mas uma fidelidade a toda a prova, e de uma moderação!... Como debaixo d'aquellas telhas todos viviam aos pares e de acordo; Tom, não vendo nenhum outro ente semelhante a elle, tinha acabado, á falta de melhor, por gostar do gato. De mais, este era recommendavel por muitas razões, bem criado, não arranhando, tendo o roubo em horror, seguindo a sua pacata dona nas alamedas do jardim, parando por amizade tantas vezes como ella, o que causava á querida senhora um enternecimento quasi perpetuo.

Como tinham resolvido ser felizes, tirando da vida todo o partido possivel, Sophia, que gostava de aves, tinha sobre a janella da cosinha um pardal sem pretenção, mas bom rapaz, o qual lhe fazia cortezias. Comtudo, tendo-se notado{147} que tomava ares de aborrecido, contra os usos da casa, tinham-lhe comprado uma gaiola maior em que metteram um segundo pardal, e ambos, desde esse dia, ficaram encantados um com o outro.

No pateo algumas gallinhas e um gallo para alegrar a habitação. Todas as manhãs ovos frescos que se comiam na casca, seguidos de uma chavena de chá. A senhora tinha adoptado este costume inglez, porque o senhor o achava bom.

Uma grande preocupação, era o cuidado no lago. O nome, é preciso convir, era pomposo, mas emfim supportava-se para não se dizer o charco... Havia n'elle um grande interesse para a senhora Deschamps. O seu querido Raymundo tinha uma paixão, a menos buliçosa de todas as paixões, mas tambem a mais perseverante.

Talvez por este lado o vento da discordia tivesse soprado, se o ousasse; não que a boa e affectuosa Sidonia pretendesse contrariar os gostos de seu marido; longe d'isso; mas elle fazia tantas imprudencias!

Era preciso vêl-o nos dias de chuva, durante quatro horas, os pés na herva molhada o braço estendido como uma taboleta de loja, com a linha de pesca dependurada e immovel, e tudo isto para pescar um pequenino peixe para frigir.