—Eu bem sei, dizia a senhora Deschamps,{148} que elle tem o seu capote forte, que lhe puz, sem elle saber, palmilhas de cortiça nos sapatos, e que tem tamancos. Bem sei que se lhe não vêem os olhos, nem as orelhas, mas só um bocadinho do nariz; não importa; eu preferia, quando chove, saber que está em casa a ler, a escrever ou a fazer as suas caixinhas:
E necessario dizer que o senhor Deschamps, para repousar dos trabalhos sem fim da escripturação, entretinha-se com diversas obras de marceneiro; tinha feito officina de uma casa terrea, e sua mulher apressou-se a pôr-lhe cortinas verdes para que a claridade não fosse forte, e um pequeno fogão para quando a estação ia adiantada. Gostava de ouvir o seu querido Raymundo aplainar; no seu gabinete não o incommodava nem o sol, que poderia fazer-lhe mal á cabeça, nem a humidade tão perniciosa para a sua garganta! Desejava nos dias de chuva, fechal-o á chave n'este lugar agasalhado, dando sobre o jardim, e onde se podia bem fabricar, sem se ser estorvado, cincoenta caixas a fio para metter umas nas outras, e fazer a felicidade dos netos e dos sobrinhos.
Mas é lá possivel dar boas razões aos amadores da pesca? Como está decidido que os peixes, ao contrario de nós, passeiam de boa vontade quando chove, o senhor Deschamps armava-se dos pés á cabeça sempre que o ceo estava escuro. Por condescendencia com sua{149} mulher, consentia é verdade em se abafar mais; cache-nez, lenço de seda, gravata grande, e chapeu baixo para coroar o edificio; mas ainda assim arranjava-se de maneira que punha o chapeu á banda, como quem dizia: «Que me importa! Não serei eu senhor de me molhar como uma sopa se quizer?»
A senhora Deschamps, no interesse da paz, não fazia mais do que um sermão respeitoso, depois do qual abandonava o marido á sua desgraçada sorte; mas, passando pela cosinha, olhava para Sophia com certo ar de intelligencia, que teem entre si os filiados na mesma corporação. Sophia, n'estes casos, não deixava de fazer uma cara de piedade, e de dizer, pensando em Julião:
—Ai! minha senhora, não me falle em homens; não ha nada peior do que elles!
Dito isto, pensava, descascando as cenouras, no que poderia dar a seu marido pelas amendoas ou no dia dos seus annos, em quanto que a senhora Deschamps estendia sobre a cama do teimoso pescador roupa branca, bom calçado e fato de abafar, para que elle podesse mudar tudo quando voltasse. Tinha notado que aquelle querido Raymundo, como todos os Raymundos que se podem imaginar, pegava de melhor vontade na roupa que lhe punham á mão, do que n'aquella que era preciso ir buscar ao armario; portanto não se esquecia mesmo do lenço d'assoar.{150}
Julgam talvez que esta excellente senhora amaldiçoava o lago, que fazia sombra á sua felicidade?
Não, teria sido uma d'essas opposições vulgares, que se encontram em toda a parte, e que dependem tanto d'um genio implicante como d'um coração dedicado. A senhora Deschamps mandava limpar as proximidades d'aquelle logar encantado; tinha ella mesma plantado um chorão tão alto como ella, que em poucos annos, á força de cuidados, tinha conseguido crescer, engrossar e chorar como os outros, reflectindo na agua a sua linda imagem, o que fazia um delicioso effeito na paizagem.
Todos os dias depois do jantar via-se a senhora Deschamps dirigir-se para ao pé da agua, e chamar com voz meiga os felizes habitantes d'aquellas ondas. Não porque elles lhe agradassem com o seu ar tolo e seus olhos de peixe; mas era o prazer de seu marido, a sua distracção, e bem innocente era! E por isso ella deitava invariavelmente na agua, á mesma hora as migalhinhas que trazia de cima da meza, juntando-lhes, de proposito, um bocado de pão cortado para isso. D'isto resultava que os peixes, sem saberem bem porque, fugiam do senhor que os procurava sempre, e vinham ao encontro da senhora, que não gostava d'elles.
Pode fazer-se idéa, depois d'esta pequena descripção, como a vida era doce e agradavel n'aquella modesta habitação a que chamavam a{151} casa branca, porque effectivamente a sua brancura destacava na solidão sobre o fundo verde dos prados e sobre as diversas côres dos alamos e das faias. Na verdade havia tanto tempo que a gente do sitio lhe dava esse nome, que, se tivessem tido a lugubre idéa de lhe pintar as quatro frentes de preto, é provavel que se continuasse a chamar a Casa branca.