O corpo e o espirito repousavam á vontade entre essas quatro paredes, tão chegadas umas ás outras, e á sombra da pequena propriedade. Uma criança, neto ou sobrinho, vinha muitas vezes alegrar a casa. Via-se correr com Tom nas ruas do jardim, e nas do pomar, ora Francisco, ou Victor, ora Genoveva ou qualquer outro. Convidava-se só um, o bastante para dar vida e animação.

Dois ao mesmo tempo estonteariam toda aquella gente, que vivia tão socegada entre as couves e as ervilhas.

E a horta! que delicia! Ajudado por Julião, o senhor Deschamps revolvia a terra a seu gosto como os filhos do lavrador de La Fontaine; os alhos eram lindos, os espinafres soberbos; os rabanetes nasciam em toda a parte onde se semeavam, e as alfaces mesmo onde se não semeavam. Não era grande a horta; duas ruas em cruz, cem passos ao todo; os sobrinhos podiam dizer como a cantiga:

Ha quatro canteiros
No jardim de minha tia...{152}

A alegria dos dois casaes era em grande parte devida á horta. O senhor dirigia e participava do trabalho de Julião, tendo cuidado, bem entendido, de deixar a maior parte ao visinho; a senhora arrancava as hervas mal sahiam da terra; e Sophia cortava tudo quanto podia para metter na panella. D'este modo todos ficavam contentes com bem pouco.

Percebe-se que os felizes proprietarios vissem cada anno reapparecer o mez de Maio com grande prazer. Este anno a senhora Deschamps tinha arrumado e acondicionado da traça o seu fato de inverno com tanto empenho, que parecia uma rapariga. É que o coração conserva-se muito tempo novo quando a tempestade o não sacode, e está solidamente amarrado a alguma margem bem tranquilla. A senhora Deschamps sabia que seu marido passava melhor no campo, e, como recebia muitas vezes a visita de suas filhas, em nada invejava a sua habitação de inverno. De mais a mais tinha elle amigos na villa proxima, e podia bastantes vezes offerecer-lhes um bom jantar ou uma pequena partida, ou ir com sua mulher distrahir-se a casa d'elles. A feliz Sidonia, em vista d'este bem estar, em que todos os annos seu marido se mergulhava, fazia com prazer os seus preparativos de jornada.

Durante o inverno não ficava a linda casa abandonada. Um jardineiro vinha de tempos a tempos arranjar os quatro canteiros, e semear{153} tudo quanto podia ser util para o governo da casa quando chegassem.

O senhor Deschamps tinha, duas ou tres vezes, o gosto de vir elle mesmo indicar ao jardineiro o que tinha a fazer, e deitar uma vista d'olhos á propriedade toda. Visitava n'esses dias a casa com um cuidado quasi paternal, e demorava-se por condescendencia na sala de que sua mulher tanto gostava.

Quando ali chegava nunca deixava de dar corda ao relogio. Este relogio era o thesouro da senhora Deschamps; offerecido pelo marido no primeiro anno de casados, era estimado não só como objecto d'arte, mas tambem como uma lembrança. O seu timbre sonoro e puro resoava por toda a casa até á adêga. Representava a nobre mãe dos Gracchos animando seus filhos a serem intrepidos romanos cheios de audacia e de valor.

A escolha d'este bello grupo de bronze era significativa. Não se entrava em duvida que a excellente senhora tivesse bastante força moral para preparar defensores da patria como a romana Cornelia; mas, não tendo tido senão filhas, tinha feito d'ellas simplesmente tres mães de familia bem dedicadas aos seus maridos e aos seus filhos. Todas ellas juntas faziam de certo menos barulho que um heroe; mas valiam tanto como elle, e sua mãe dizia que valiam tres vezes mais.