Estava-se a vinte e dois de Março, dia escolhido{154} n'esse anno para se mudarem para o campo; todos chegaram, como de ordinario, de muito bom humor. Mas que de coisas para fazer n'um dia de mudança! Repartia-se o trabalho, e, de commum acordo, abandonava-se a Julião as teias de aranha; havia muitas. Armado d'um vasculho partia para a expedição, e, como outr'ora Attila, prostrava tudo quanto encontrava, com a differença de que abria caminho á civilisação, representada por Sophia.
Esta, n'um vestuario proprio para a circumstancia, seguia seu marido n'uma distancia respeitosa, e, quando estava certa de que o conquistador tinha morto tudo, vinha com a sua vassoura e o seu esfregão, e só retirava depois de ter posto tudo em ordem, mas um pouco toscamente, como os fundadores dos imperios, que contam com os seus successores.
Effectivamente, vinha em terceiro logar a dona da casa, com o seu ar tranquillo e sereno, imagem de um poder bem assente, que, sem barafunda, melhora tudo em que toca. N'uma simplicidade de vestuario que o desejo de parecer bem ao esposo impedia sempre de ser desengraçada, a boa Sidonia começava a limpar as prateleiras, os vasos, as porcelanas, e a espanejar os objectos frageis, sobretudo a pendula. Na verdade, quando Julião, depois Sophia e depois a senhora tinham passado pela sala, o feliz dono da casa não podia deixar de dizer, com ar de bem-aventurança: «Como se está bem aqui!»{155}
Julgava então sua mulher ter conquistado o bastão de marechal, porque não imaginava maior satisfação do que a alegria do seu Raymundo.
Quando se acabou n'este primeiro dia a limpeza indispensavel, Sophia começou a pensar no jantar; e para fazer depressa um bom lume na chaminé da cosinha, dirigiu-se para a adêga, com uma véla de cebo na mão para ir buscar um pouco de carvão miudo e duas ou tres achas grossas.
Desce, entra, e o que ha de vêr? Uma taboa ao pé do tonel; o pouco carvão que restava, espalhado por todos os lados, e, a dez passos de distancia, uma fita doirada atada pelas pontas...
Vendo estes signaes da passagem de um individuo n'aquella adêga tão bem fechada, Sophia experimentou uma sensação de medo, bem natural. Comtudo, como não queria que seu marido tivesse motivo para fazer escarneo d'ella, a cosinheira, vendo que não havia, no fim de contas, nem um gato na adêga, encheu-se d'uma coragem invencivel, e chamou com voz socegada Julião e seus amos para lhes mostrar a sua descoberta.
Os homens admiraram-se; quanto á senhora Deschamps, sendo uma das suas fraquezas o ter medo da sua propria sombra, aproveitou, por tanto, a occasião. Todos quatro combinaram que o caso era muito extraordinario.{156}
Começou então o capitulo das supposições; foi comprido e interessante. Quando já não havia que dizer tornaram a subir, mesmo porque tudo isto não fazia o jantar. Voltando-se, a senhora Deschamps notou algumas palavras escritas com carvão na parede. Diz a historia, que o rei Balthazar tremeu de medo, vendo uma mão mysteriosa traçar sobre a parede da sala do festim tres palavras, que elle não podia ler. A pobre Sidonia teve, pelo menos, o espirito tão perturbado como elle, lendo esses nomes lançados no subterraneo como outras tantas exclamações de afflicção:
Papá! mamã! Camilla! Eugenio! Frederico! Rosinha! Valneige!