O proprio senhor Deschamps ficou pensativo, e Julião, que tinha sido soldado, não poude deixar de proferir dois ou tres palavrões, que lhe desculpavam nas grandes occasiões. Quanto á cosinheira, abandonada de todo pela sua philosophia, fez um enorme signal da cruz, dizendo que, sem a menor duvida o diabo, tinha passado pela adêga, e que ella nunca mais lá voltava.

—Vejamos, Sophia, disse com firmeza o dono da casa, é melhor pensar do que ter medo, que é a ultima coisa que se deve fazer. Alguem veiu aqui, não ha duvida; mas o diabo ataca as almas e não as garrafas vazias; e não escreve nas paredes nomes, que attestam innocentes recordações de familia.

Sophia respirou um pouco melhor, porque{157} tinha pelo senhor Deschamps um verdadeiro respeito, fundado na discrição da sua opinião, quando se não tratava da pesca.

Como era ella que pegava no candieiro, levantou-o, depois abaixou-o, para acabar as descobertas, e apontou com o dedo para algumas palavras que ainda não tinham visto.

—Ainda mais coisas escritas! Oh! leia, leia, minha querida senhora!

A senhora leu com profunda emoção.

—Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!

Mais abaixo havia ainda:

—Chamo-me Adalberto de Valneige... esta noite faço nove annos... tenho fome!

É preciso ser mãe para comprehender o que sentia a boa senhora Deschamps. Uma criança tinha estado fechada n'este subterraneo, só, abandonada, tinha chorado, tinha tido fome.