Vinham pois á festa; e os paes tambem; haveria um grande jantar; a palavra grande queria dizer n'este caso muitas pessoas amigas de roda de uma meza perfeitamente servida. Quanto á etiqueta, á frieza, e aos outros attributos dos verdadeiros jantares grandes eram coisas que não se davam em Valneige onde se conversava, como dizia Rosinha, com o coração nas mãos.
No dia seguinte passaram-se mil scenas alegres e animadas no parque. Os visinhos tinham mandado logo de manhã Paulo, Eduardo e Christiano. Cinco, eram mais do que o bastante para fazerem coisas do arco da velha. Ao principio Rosinha tentou intervir, fazendo algumas pequenas recommendações, e prevenindo as quedas e os estragos, mas era o mesmo que prégar no deserto, e Rosinha comprehendeu-o tanto que tratou de retirar-se com uma certa dignidade. Da copa fez uma especie de entrincheiramento d'onde não se via o inimigo, o que podia talvez fazel-o esquecer. Pegando na celebre e obrigada meia começou a trabalhar com furor e sem descanso. Os rapazes puzeram Filippe do seu partido para facilitar as brincadeiras, e como o amo tinha passado palavra ao cocheiro este foi de uma condescendencia a toda a prova. Deixou apparelhar o cavallo preto e permittiu que dessem a volta do parque, sendo Frederico{189}
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{191} o cocheiro, Eugenio o lacaio e indo tres senhores dentro da carruagem. Seguiram-se a esta outras invenções. Filippe estava de pachorra e organisou um passeio de bote; grande divertimento! com a condição dos rapazinhos lhe darem bastante authoridade para poder impedir que fossem todos para o fundo.
Deixou apparelhar o cavallo preto. (Pag. 188.)
Estes divertimentos, interrompidos só por um bom luncheon, duraram até ás cinco horas. Chegaram então de carruagem os paes dos tres condiscipulos. O senhor e a senhora de Valneige receberam-nos com affabilidade, e ás seis horas entraram na casa de jantar treze pessoas.
Serviu-se o jantar; os creados estavam contentes de tornar a vêr alguma animação no palacio, e tudo se passou alegremente. Houve, porém, um momento, em que a senhora de Valneige não poude vencer a sua emoção. Eduardo exclamou de repente:
—Olhem! é exquisito, somos treze; ha pessoas que têem agouro com jantares de treze:
—Não têem razão, porque se está muito bem, palavra! respondeu Paulo rindo.
O senhor de Valneige, que não perdia nunca occasião de esclarecer o espirito de seus filhos, disse algumas palavras sobre esta fraqueza.
—Mas, papá, perguntou Eugenio, d'onde virá uma tal superstição?